Já temos, outra vez, um ambicioso plano para colocar fim ao crime organizado. Será? É a pergunta cabível, pois assistimos a este filme, em formato de promessas, soluções imediatas, pactos e ineditismos.
Vamos fugir dos escapismos e ir direto ao ponto, graças a uma pesquisa bem feita do Datafolha, mostrando um componente umbilicalmente ligado a todas as variantes do tema. O Governo central via o combate ao crime, que só assumiu em tempos eleitorais que se aproximam, como se fosse pecado capital. Acordou ao perceber que a sociedade deseja fortalecimento nesse combate e menos complacência com criminosos. Nada de covardia intelectual, submissão ideológica que arrasta para a indiferença moral. Esse perigoso ingrediente tem nome: medo. Não se trata de mero substantivo masculino: reflete diretamente ter consciência do perigo. A pesquisa aponta, dentro de um universo significativo, o que mais atemoriza a sociedade. É o que nos interessa, com facetas: assaltos, ser morto por bandido e furto/roubo de celular. Os golpes digitais também são mencionados expressivamente.
Acabamos nos acostumando a conviver com o medo. É sentimento emocional diante da percepção de perigo. Em situação extrema, transforma-se em pânico, pavor, síndrome do excesso de medo. Fora desse estágio, o susto, sobressalto, o ataque repentino, inesperado. Assim vivemos, prevenidos por obrigação na própria casa, cautelosos nas ruas, atentos em determinados lugares e situações.
Impressionante: 96% dos brasileiros sentem medo de alguma coisa. Segundo o filósofo indiano Krishnamurti, só sentimos medo daquilo que nos é desconhecido. O fator gerador. No nosso caso específico, medo do incógnito e ainda do que eventualmente possa nos acontecer. Reflexos instintivos: alterar rotinas no caminho de casa para o trabalho e vice-versa; sair menos à noite; cuidados preventivos ao andar pelas ruas com relógios, brincos, pulseiras, correntes, anéis e colares; receio de motos emparelhando com o carro; ladrões usando bicicleta, que arrebatam celulares; como transeunte, andar distraído; mulher andando sozinha; deixar de adquirir um bem por medo de ser atacado posteriormente; golpes em geral, que incluem o falso advogado, mensagens por celular e computador; violência sexual, com estupros. Agravante: o criminoso se aperfeiçoa a cada dia.
Cuidado. Desconfie. Não seja ingênuo. O medo não é previsto pelos códigos.
*Jornalista e escritor
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