Uma cidade que cresceu mais do que devia, que sepultou seus cursos d’água, matou seus três principais rios e fez desaparecer o verde, não é um espaço adequado para que os seres humanos que nela habitam atinjam a plenitude de suas potencialidades.
Há problemas que parecem menores, mas que na dimensão populacional transformam-se em pesados ônus. Excesso de carro, excesso de poluição, engarrafamentos, uma produção atordoante de lixo, reflexo da era do descartável. Quase tudo o que se usa é jogado fora. Hábitos já banidos das grandes cidades do Primeiro Mundo aqui vicejam: a entrega de papéis, folhetos, cartões e toda espécie de tosca propaganda atormenta o pedestre apressado. O resultado é a via pública às vezes coberta de restos que serão recolhidos pela limpeza pública.
Cidade realmente civilizada não precisa de coletores de lixo. A população educada sabe se desfazer ecologicamente daquilo que produz para descarte. A abordagem e o assédio contínuo, constituem espetáculo não condizente com a vocação de centro cosmopolita moderno. Se alguém fotografasse as fisionomias diante desse ataque incessante se surpreenderia com as feições entre assustadas, irritadas e angustiadas.
Parece pouco. Mas enquanto o legislador municipal não proíbe essa prática superada e antiecológica, causadora de dispêndio para o Erário e perturbadora do que restou de sossego público, é importante propiciar às pessoas a oportunidade de um espaço de tranquilidade.
A Avenida Paulista possui hoje alguns equipamentos notáveis. Começa com a Japan House, perto do Paraíso, em seguida a Casa das Rosas, a Fiesp/Ciesp com suas exposições e variada programação cultural, o Sesc, o Itaú Cultural, o Instituto Moreira Salles sem falar na Livraria Cultura, na Martins Fontes e numa sala da Caixa ainda destinada à arte itinerante.
São refúgios para curtir a beleza, para a reflexão, para o encontro consigo mesmo através da arte, da cultura, da performance, da produção que um talento predestinado oferece à apreciação de todos.
São atrações gratuitas, oferecidas a todos os que pretendam amenizar os rigores de um convívio exauriente. Da pressa, do consumismo, do egoísmo, da competitividade e tudo às mais das vezes pontilhado pela falta de respeito em relação ao semelhante.
A beleza é remédio. Não é privilégio do rico. Está disponível, ao alcance dos seus olhos e demais sentidos, se você tiver vontade. Um hiato na corrida diuturna e o acolhimento num desses refúgios e de tantos outros, poderá auxiliar ao reencontro consigo mesmo, exercício que nem sempre nos é dado usufruir, na loucura da vida cotidiana.
José Renato Nalini
- Reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Ética Ambiental” e Presidente da Academia Paulista de Letras.