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Sábado, 27 de Junho 2026
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Reconstruir a coesão na aldeia de origem

Colunista Gen. Otávio Santana do Rêgo Barros

Reconstruir a coesão na aldeia de origem
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O mundo está perturbado e divisivo. As pessoas perderam o senso mínimo de respeito. A discordância normal no dia a dia na sociedade, ao mínimo contratempo, gera ataque verbal e até físico contra um eventual opositor. 

Observa-se esse comportamento irascível no trânsito, nas reuniões de condomínio, nos supermercados, no trabalho, na família, nas mídias sociais, na política. 

Tornamo-nos indivíduos emocionalmente isolados a ponto de rompermos aquele senso comum de cooperação: juntos somos mais fortes para enfrentarmos as adversidades. 

O conceito de comunidade que nos fez crescer como aldeia, nos uniu como nação e nos organizou como Estado, gerando bem-comum, foi para as calendas - “farinha pouca meu pirão primeiro”. 

Vivemos tempos sombrios? 

Hobsbawn, em seu livro A ERA DOS IMPÉRIOS, asseverou que, no passado, o declínio das comunidades primárias, citando-as como a aldeia, a família, a paróquia, o bairro, a confraria, fez com que elas construíssem uma nova comunidade imaginária, centrada na ideia de nação. 

Em obra posterior, NAÇÕES E NACIONALISMO, ele fez outro balanço do nacionalismo, com luz no final do século XIX, e identificou formas de divisão do trabalho e avanço da tecnologia que pareciam indicar o enfraquecimento dos Estados-nações. 

Dois textos, duas ideias, aparentemente distintas, mas que nos preparam intelectualmente para as adversidades desses novos tempos e que trazem em seu bojo os desafios do novo nacionalismo em um mundo que respira ares narcotizados da intransigência.  

É fato e Hobsbawn igualmente apontou que tudo parecia indicar uma debilitação dos Estados-nações. Todavia, os conflitos do fim do século XX colimaram outra direção, renascendo os problemas nacionais, já que as nações não encontravam mais as contenções da bipolarização. 

Observando-se a postura das sociedades ocidentais (do Velho Mundo às Américas), elas agora revelam angústias, frustações, desesperanças e, como solução, a busca indiscriminada de lideranças que recuperem a confiança no futuro da aldeia, reforçando o “nós imaginário” contra o “eles simbólico”. 

Vamos aos fatos. Quinta-feira (27.06.24), esse mundo intimidado parou para assistir ao debate na CNN entre os candidatos a Presidente dos Estados Unidos. 

O atual presidente Joe Biden e o ex-presidente Donald Trump se rivalizaram diante das câmeras para primeiro desconstruir o adversário e, somente depois, se fosse possível e nem era realmente essa a intenção, apresentar propostas. 

Posições diametralmente opostas os separa e aos seus eleitores na caminhada para a cadeira mais poderosa do mundo como ainda o conhecemos.  

O debate evidenciou a falta de opções em novas lideranças. Refletiu o engessamento de ideias e a exacerbação de posições ideológicas.  

Aliás, uma situação semelhante à que vive a América Latina e a Europa Ocidental atualmente.  

Na Europa, a social-democracia, antes vista como a perfeição de equilíbrio entre o social, o econômico e o político, vem apanhando de goleada para posições mais conservadoras defendidas pela direita mais à direita. As eleições para o Parlamento Europeu confirmam a assertiva.  

A França da igualdade, fraternidade e liberdade segue o caminho do endurecimento com os imigrantes. A Itália namora latinamente posições mussolinianas. A Alemanha, por tantos anos na mesa de terapia em função do nacional-socialismo que a destruiu, trilha o mesmo caminho dos vizinhos gauleses. 

Aqui na América Latina, a ciclotimia esquerda-direita, progressistas-conservadores, estatizantes-liberais se mostra pulsante em países como Argentina, Brasil, Chile e Colômbia. 

Em paralelo, as estruturas de poder construídas após a Segunda Guerra Mundial caducaram e são incapazes de manterem o equilíbrio entre os Estados-nações.  

A maioria dos países as considera incompetentes para resolver os problemas deste mundo em constante acirramento de vontades. 

Vontades que em nosso mundo palpável refletem as individualidades figadais, projetando-se nas relações interpessoais da vida cidadã e institucionais da condução dos Estados. 

É possível que a solução para esses problemas de relacionamento esteja na pacificação dos espíritos no chão de fábrica de nossas existências, reconstruindo novamente a coesão na aldeia de origem: a família. O sucesso da aldeia maior virá, por consequência, a reboque. 

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