Nos últimos dias, dois jogadores brasileiros de futebol viveram uma situação que nos deixou indignados, mas que infelizmente ainda é comum nos estádios e na nossa sociedade. Taison e Dentinho estavam disputando uma partida do campeonato ucraniano, quando parte da torcida adversária começou a praticar ofensas raciais toda vez que eles tocavam na bola.
O fato teve grande repercussão porque Taison se revoltou com a situação e reagiu com gestos direcionados à torcida, sendo em seguida expulso pelo árbitro da partida. Nas redes sociais o jogador disse que jamais se calaria frente ao racismo e citou a famosa frase da escritora Angela Davis: “Em uma sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista.”
Longe de ser um mal que atinge apenas a Europa, uma pesquisa realizada pelo Globo Esporte com atletas e treinadores de 60 clubes de todas as divisões do futebol brasileiro mostrou que 48% deles já sofreram racismo no esporte.
Não é a primeira vez que vemos tristes espetáculos de preconceito no futebol. Mas é especialmente triste ver tudo isso acontecer no mês em que, aqui no Brasil, comemoramos o Dia da Consciência Negra. A data, 20 de novembro, foi escolhida em homenagem a Zumbi dos Palmares, um dos líderes do mais icônico quilombo da história brasileira, símbolo da resistência da população negra à escravidão, que chegou a abrigar 20 mil pessoas.
Historiadores afirmam que essas pessoas negras que fugiram da escravidão formaram em Palmares um verdadeiro Estado independente, reproduzindo de alguma forma o modelo de organização dos reinos africanos. Porém, mais de duzentos anos depois do fim do quilombo, a população negra brasileira ainda parece viver em um país diferente dos brasileiros não negros.
Dados do IBGE mostram que as pessoas negras são 54% do total da população brasileira. Porém, entre as pessoas com menor renda no país os negros são 76% e entre os com maior renda são apenas 18%. O desemprego e a informalidade são maiores entre os negros, a renda média é menor. O acesso à educação também é menor entre negros, bem como o tempo de escolaridade, mas o analfabetismo é maior.
Até quando falamos em direito à vida, há desigualdade racial. A taxa de homicídios de negros é duas vezes e meia superior à de não negros e a taxa de homicídios de mulheres negras é 71% superior à de mulheres não negras.
Todos nós temos o poder e a responsabilidade de combater o racismo, a começar pelo exame da nossa própria consciência. Se sonhamos com um futuro em que a população negra não precise mais lutar por sua cidadania, participar dessa luta hoje é um importante passo.
Adriana Ramalho
* Vereadora da cidade de São Paulo e presidente da Associação das Vereadoras do Estado de São Paulo. E-mail: adrianaramalho@adrianaramalho.com.br