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Peste sem vacina

Colunista José Renato Nalini

Peste sem vacina
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O Brasil registra um número incrível de mobiles, estes aparelhos eletrônicos quais celulares, smartphones, tablets, notebooks, computadores pessoais, tudo isso que permite conectividade permanente. Como somos quase duzentos e catorze milhões de habitantes, muitos de nós possuímos não apenas um, mas vários desses aparelhos.

Reconheço a importância deles. Permitem comunicação instantânea e para qualquer parte do planeta, com os seres queridos. Familiares e amigos. Avós podem conversar com seus netos, embora o Atlântico os separe. Ganha-se tempo e economizam-se recursos com o anywhere office. Hoje trabalha-se em qualquer lugar, sem a necessidade da presença física. 

Só que nem tudo é benéfico. O mau uso se tornou sintoma de uma grave pandemia. Razão tinha Aristóteles quando dizia que virtude e vício eram apenas polos contrários. Quem abusa de seus mobiles tende a se tornar doente. Nem sempre se dá conta disso.

O espetáculo rotineiro é sintomático dessa enfermidade coletiva. Metrô e ônibus ocupados por pessoas curvadas e atentas às telinhas. Os restaurantes têm suas mesas a servir comensais que não conversam entre si. Só mandam mensagens, recebem WhatsApp, riem com os tik-toks, consultam o Google, que substituiu as extintas enciclopédias, o Instagram, Facebook e Linkedin. 

Namorados já não se afagam. Mandam mensagens, embora estejam um diante do outro. Cada um ligado ao seu objeto mais precioso. Não é uma questão que afeta apenas a juventude. Conheço um porteiro de prédio que não levanta a cabeça de seu celular e todos os que chegam ao edifício têm de acionar a campainha para que abra a porta. Crianças parecem já nascerem com chip. Sabem ligar as telas, conhecem o clique preferido. Fazem birra quando os pais – ou a babá – tira o celular.

Há coisas mais graves. Como o vício chegou antes ao Primeiro Mundo, ali já ocorreram até tragédias. Jovens obcecados por games ficam sem comer e fanáticos, mergulham no virtual. Esquecem-se ou se recusam a viver de verdade. Na Inglaterra, a mãe que jogou o computador do filho pela janela foi surpreendida com o ato insensato logo em seguida: frustrado, o jovem também se atirou e praticou suicídio.

O veículo do afeto e da aproximação, é também o motor da crueldade. O bullying eletrônico também causa depressão e suicídio. Aos poucos, as pessoas deixam de conversar, começam a abreviar suas mensagens, o mundo das redes sociais cria uma nova forma de se exprimir, praticamente onomatopaica. São os kkk, os rs, os e-moji, as invenções que empobrecem o vernáculo e transformam os humanos em autômatos, verdadeiros robôs. 

Ninguém imagina voltar a viver num planeta sem internet. Ao contrário, anuncia-se a vinda gradual de novidades alucinantes. Será que elas amenizarão o clima caótico das polaridades que se agridem? Ou frearão as Fake News, tão nocivas para a convivência?

As discussões ganham tonalidade extremamente agressiva. Parece que “falar com a telinha” afasta os freios inibitórios. Como não se encara fisicamente o contendor, o usuário se torna destemido. Destemperado. Violento ao escolher palavras que ferem. E 97% dos brasileiros estão conectados nesta verdadeira pugna eleitoral. Ainda não há vacina para a agressividade difusa que habita as redes sociais. 

A criatividade humorística já mostrou uma das profissões do futuro: o cuidador de um viciado em internet. Alguém que fará tudo por ele. A cena final é hilariante. Mas há um problema sério e que vai trazer aborrecimento para muitas famílias. Os jovens que se curvam para olhar a telinha comprometerão sua coluna cervical. Prevê-se estrondoso aumento de RPG – Reeducação Postural Global, Pilates, Fisioterapia, inclusive cirurgias corretoras. Não se estranhará, daqui a algum tempo, encontrar jovens com placas metálicas na nuca ou colares ortopédicos que obrigam a postura ereta. 

O sistema escolar, sempre superado e desatento ao que ocorre no mundo real, vai demorar para incluir em seu estudo integral, técnicas de temperamento dessa submissão mental à tecnologia. Esta é amiga da humanidade, mas quando não se sabe utilizá-la com lógica e bom senso, pode ser insidiosa inimiga, que acaba sacrificando as exuberantes potencialidades dos racionais. 

Reflitamos e respondamos: somos senhores ou escravos da internet?

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022.  

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