Aguarde, carregando...

Quarta-feira, 17 de Junho 2026
Notícias Colunistas

Peste sem vacina

Colunista José Renato Nalini

Peste sem vacina
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

O Brasil registra um número incrível de mobiles, estes aparelhos eletrônicos quais celulares, smartphones, tablets, notebooks, computadores pessoais, tudo isso que permite conectividade permanente. Como somos quase duzentos e catorze milhões de habitantes, muitos de nós possuímos não apenas um, mas vários desses aparelhos.

Reconheço a importância deles. Permitem comunicação instantânea e para qualquer parte do planeta, com os seres queridos. Familiares e amigos. Avós podem conversar com seus netos, embora o Atlântico os separe. Ganha-se tempo e economizam-se recursos com o anywhere office. Hoje trabalha-se em qualquer lugar, sem a necessidade da presença física. 

Só que nem tudo é benéfico. O mau uso se tornou sintoma de uma grave pandemia. Razão tinha Aristóteles quando dizia que virtude e vício eram apenas polos contrários. Quem abusa de seus mobiles tende a se tornar doente. Nem sempre se dá conta disso.

O espetáculo rotineiro é sintomático dessa enfermidade coletiva. Metrô e ônibus ocupados por pessoas curvadas e atentas às telinhas. Os restaurantes têm suas mesas a servir comensais que não conversam entre si. Só mandam mensagens, recebem WhatsApp, riem com os tik-toks, consultam o Google, que substituiu as extintas enciclopédias, o Instagram, Facebook e Linkedin. 

Namorados já não se afagam. Mandam mensagens, embora estejam um diante do outro. Cada um ligado ao seu objeto mais precioso. Não é uma questão que afeta apenas a juventude. Conheço um porteiro de prédio que não levanta a cabeça de seu celular e todos os que chegam ao edifício têm de acionar a campainha para que abra a porta. Crianças parecem já nascerem com chip. Sabem ligar as telas, conhecem o clique preferido. Fazem birra quando os pais – ou a babá – tira o celular.

Há coisas mais graves. Como o vício chegou antes ao Primeiro Mundo, ali já ocorreram até tragédias. Jovens obcecados por games ficam sem comer e fanáticos, mergulham no virtual. Esquecem-se ou se recusam a viver de verdade. Na Inglaterra, a mãe que jogou o computador do filho pela janela foi surpreendida com o ato insensato logo em seguida: frustrado, o jovem também se atirou e praticou suicídio.

O veículo do afeto e da aproximação, é também o motor da crueldade. O bullying eletrônico também causa depressão e suicídio. Aos poucos, as pessoas deixam de conversar, começam a abreviar suas mensagens, o mundo das redes sociais cria uma nova forma de se exprimir, praticamente onomatopaica. São os kkk, os rs, os e-moji, as invenções que empobrecem o vernáculo e transformam os humanos em autômatos, verdadeiros robôs. 

Ninguém imagina voltar a viver num planeta sem internet. Ao contrário, anuncia-se a vinda gradual de novidades alucinantes. Será que elas amenizarão o clima caótico das polaridades que se agridem? Ou frearão as Fake News, tão nocivas para a convivência?

As discussões ganham tonalidade extremamente agressiva. Parece que “falar com a telinha” afasta os freios inibitórios. Como não se encara fisicamente o contendor, o usuário se torna destemido. Destemperado. Violento ao escolher palavras que ferem. E 97% dos brasileiros estão conectados nesta verdadeira pugna eleitoral. Ainda não há vacina para a agressividade difusa que habita as redes sociais. 

A criatividade humorística já mostrou uma das profissões do futuro: o cuidador de um viciado em internet. Alguém que fará tudo por ele. A cena final é hilariante. Mas há um problema sério e que vai trazer aborrecimento para muitas famílias. Os jovens que se curvam para olhar a telinha comprometerão sua coluna cervical. Prevê-se estrondoso aumento de RPG – Reeducação Postural Global, Pilates, Fisioterapia, inclusive cirurgias corretoras. Não se estranhará, daqui a algum tempo, encontrar jovens com placas metálicas na nuca ou colares ortopédicos que obrigam a postura ereta. 

O sistema escolar, sempre superado e desatento ao que ocorre no mundo real, vai demorar para incluir em seu estudo integral, técnicas de temperamento dessa submissão mental à tecnologia. Esta é amiga da humanidade, mas quando não se sabe utilizá-la com lógica e bom senso, pode ser insidiosa inimiga, que acaba sacrificando as exuberantes potencialidades dos racionais. 

Reflitamos e respondamos: somos senhores ou escravos da internet?

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022.  

+ Lidas

Nossas notícias no celular

Receba as notícias do Semanário ZN no seu app favorito de mensagens.

Telegram
Whatsapp
Entrar

Veja também

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR