Lendo o conciso texto da mensagem que tinha às mãos, o comerciante europeu – daquele país da Península Ibérica (que só tem dois países: Espanha e Portugal...) – fica à beira de um ataque de nervos! Chama a esposa e esbraveja:
– Estás a ver? Pomos esse aldrabão a estudar, para que seja polido, e veja só como ele se dirige ao seu pai, dando-me ordem: “Pai, mande dinheiro!” Pois eu não vou mandar é coisa alguma! Ele que aprenda a ser educado!
Serena, a mãe lê o fatídico bilhete e pondera:
– “Ó, Joaquim, ele não está a dar ordem! Está humildemente a pedir. E com voz meiga, súplice até, lê à sua moda: “Pai, mande dinheiro!”
– “Ó, pá! Pois se é assim, vou atender o pedido”!
O que houve aqui foi apenas o emprego do verbo mandar, no modo Imperativo! Ocorre que esse modo é usado para mandar, dar ordem. Tem origem no verbo latino “imperare”, cognato de imperador, aquele que impera, ordena...
Entretanto, o mesmo modo verbal é aplicado também para pedir, suplicar.
Normalmente a distinção é feita pelo acréscimo de outros termos, usados ao pedir, como: por favor, por gentileza, por obséquio. No caso, se a mensagem fosse: “Pai, mande dinheiro, por favor!”, estaria resolvida a questão...
Por outro lado, a dúvida só se estabelece na comunicação escrita, pois na falada, a inflexão de voz distingue a ordem – sempre impositiva – do pedido.
No exemplo seguinte, observa-se que usamos uma mesma construção gramatical:
– “Menino, vá ao mercado!”
Exprimindo uma ordem ou um pedido, a forma gramatical não se altera. Importa ressaltar, então, que a inflexão de voz, na comunicação falada, ou os termos agregados, na escrita, indicarão se a pessoa está “a mandar” ou “a pedir”.
Por oportuno, vale lembrar que o modo Imperativo genuíno só é usado em duas pessoas do verbo: a segunda do singular e a segunda do plural! Por quê?
Porque, como ensina a gramática formal, a primeira pessoa é a que fala: eu e nós. E ninguém, de bom senso, vai formular um pedido ou uma ordem a si mesmo.
A terceira pessoa é a de quem se fala – portanto, fora do diálogo (o diálogo, aliás, ocorre entre dois: eu e tu). Ora, se não está na relação comunicacional direta, não há como dar-lhe uma ordem direta.
Sobra então a segunda pessoa: com quem se fala: tu e vós.
Como, porém, na linguagem prática, substituímos tu e vós por você e vocês – pronomes de tratamento que, como tais, pertencem à terceira pessoa, admite-se o Imperativo também para esses casos.
Não podemos deixar de acrescentar outro fator na comunicação verbal: a mulher – em especial a mãe – que sempre fala com mais meiguice e carinho!
J.B. Oliveira * Consultor, comunicador, jornalista, palestrante e-mail: jboliveira@jbo.com.br