Em releitura da obra Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon, percebi ser imperativa uma reanálise do poder que permeia o mundo atual.
Essa constatação decorre de um fato evidente: potências tradicionalmente hegemônicas veem-se desafiadas por novos “bárbaros” e sentem o poder escapar por entre os dedos, enquanto se transfere para nações igualmente assertivas no tabuleiro geopolítico.
Nesse contexto, comecemos essa reanálise tomando Roma como base. Na obra, o historiador afirma que o declínio e a queda do poderoso império tiveram por origem “a natural e inevitável grandeza imoderada”.
A partir dessa premissa, observa-se que a prosperidade crescente de uma Roma imoderada trouxe ao palco políticos igualmente imoderados (incluam-se também generais), ávidos por mais influência, obcecados por bens efêmeros e mestres na vendeta entre pares.
Como consequência direta, germinou a semente de uma planta cujo fruto era a decadência das colunas política, militar, cultural e moral da sociedade.
Assim, tão logo esses sustentáculos se enfraqueceram, a estrutura desabou sob seu próprio peso.
Não por acaso, “em vez de perguntar por que o Império Romano foi destruído, deveríamos antes surpreender-nos de ele ter durado tanto tempo”, sustentava Gibbon.
Nesse processo, as legiões vitoriosas foram se afastando dos princípios seculares do estrito cumprimento do dever, primeiro tiranizando a liberdade da República e, mais tarde, violando a púrpura imperial. Com isso, o terror das armas romanas, que dava peso e dignidade à moderação dos imperadores, esvaiu-se.
Diante desse quadro, alguns débeis imperadores, para sobreviverem, viram-se reduzidos ao expediente de corromper e comprar a disciplina dessas legiões.
Todas essas transformações levaram o mundo romano a ser asfixiado por um dilúvio de insolentes bárbaros, culminando com o cerco e destruição de Roma por Alarico, em 410 d.C.
Diante desse percurso histórico e em um exercício de imaginação, seria possível comparar o declínio do império romano com uma possível degradação do império americano, como o vemos nos dias de hoje?
Enfrentemos o desafio.
Projeção de poder - Sob esse prisma, Roma sustentava vastas fronteiras, exigindo legiões permanentes, nem sempre originárias do solo materno, o que enfraquecia o vínculo que unia os soldados à pátria e levava a acordos com povos pouco confiáveis.
De modo análogo, os Estados Unidos mantêm presença global, com bases militares em vários teatros e acordos de proteção sob várias colorações, mas vêm enfrentando dificuldades para convencer aliados a alinhar-se aos projetos de seu interesse.
Pressões externas - Após atingir o limite de projeção, Roma enfrentou sucessivas rupturas de suas fronteiras, sendo obrigada a combater em várias frentes e contra diferentes inimigos, com uma cadeia logística cada vez mais dependente de insumos locais e decisões operacionais cada vez mais descentralizadas.
No caso americano, as pressões externas são de outra monta, já que a integridade de seu território não está sob ameaça direta. Contudo, a ascensão da China, a reemergência da Rússia e a emergência da Índia, “bárbaros” capazes de chegar às portas de “Roma”, em um ambiente assimétrico e multipolar, tornou-se dor de cabeça constante às lideranças daquele país.
Crises de coesão - No plano interno, as tensões políticas, militares e religiosas, em um espaço geográfico dividido em dois impérios, foram fatores decisivos para a quebra de coesão daquela sociedade.
Hoje, os Estados Unidos enfrentam polarização política e ideológica, disputas institucionais entre entidades federativas, lideranças imprevisíveis e ofensas às ideias herdadas dos Pais Fundadores, situação que erode a unidade interna.
Esgarçamento da economia - No campo econômico, Roma viu sua base econômica pressionada por custos militares crescentes, inflação persistente, queda de produtividade, gestão amadora da coisa pública e distorções estruturais.
De maneira análoga, os Estados Unidos lidam com dívida elevada, competição industrial contra países cuja mão de obra, além de capaz, é mais barata e tensões fiscais que exigem expansão contínua de sua base monetária, ancorada no “ouro da confiança”, cada dia menos acreditado.
Percepção de declínio - Por fim, ao principiar a decadência do império, as lideranças percebiam a perda de grandeza, mas não encontravam meios para revertê-la ante a diversidade de desafios a serem batidos.
Hoje, o debate político americano reconhece perda de espaço ante outros estados e as enormes dificuldades para reassumir as rédeas da liderança global. O slogan de campanha de Donald Trump, Make America Great Again, é menos promessa e mais sintoma.
Essas poucas perspectivas não encerram a discussão.
Diante disso, cabe ao leitor avaliar, com autonomia intelectual, o que esperar dessa refrega entre bárbaros e romanos contemporâneos. Mais do que isso, cabe-lhe extrair lições e, sobretudo, convertê-las em ação em prol de nosso torrão natal.
Países que apenas observam a história tendem a repeti-la. Países que a compreendem podem moldá-la.
*General de divisão da reserva
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