Morcegos são animais mamíferos que apresentam uma fina membrana de pele entre os dedos, esta membrana se estende até as patas e forma asas, por isso morcegos são mamíferos capazes de voar. Entretanto, o que torna os morcegos famosos é o fato de que algumas espécies se alimentam de sangue. A maior parte das espécies de morcegos não tem este hábito alimentar. Existem espécies insetívoras que comem insetos; espécies fitófagas que comem frutas, folhas e flores; carnívoras que comem vertebrados de pequeno porte; piscívoras que comem peixes e outros animais aquáticos; onívoras que, como nós, comem de tudo; e, uma pequeníssima parcela de espécies que se alimenta de sangue, são as espécies hematófagas.
Muitas lendas e mitos foram criados por conta deste hábito alimentar dos hematófagos. Existem vampiros em várias culturas ao redor do mundo. O mais popular, sem dúvida, é o protagonista do livro de Bram Stocker, o Conde Drácula. Escrito em 1897, tornou-se a mais famosa lenda de vampiros da literatura. Existem outros mitos igualmente interessantes, um deles é o do monstro da mitologia Maia chamado de Camazotz, com aspecto de morcego ele bebia o sangue de pessoas e animais.
Morcegos hematófagos vêm sendo encontrados em áreas rurais e no entorno das áreas urbanas já há algum tempo. Esta ocupação das áreas rurais e consequente proximidade com as cidades foi desenvolvida porque existe fartura de alimento nos locais de criação de rebanhos. As criações de bovinos, equinos, suínos e caprinos são a fonte de comida preferencial dos morcegos vampiros nas áreas rurais, porém existem relatos de pessoas que foram atacadas por morcegos hematófagos em alguns centros urbanos como Belo Horizonte, Salvador e Rio de Janeiro.
Desmodus rotundus é a espécie de morcego hematófaga que tem sido encontrada nas cidades. Este grupo consegue caminhar no solo apoiado nos dedos e costumam morder suas presas em lugares de difícil percepção como orelhas, dedos e outras extremidades. Sua saliva tem uma substância anticoagulante que impede a cicatrização da ferida e possibilita que o morcego se alimente. No Brasil a mordida do Desmodus causa muitos prejuízos, estima-se que quarenta mil mortes bovinas sejam causadas pelo vírus da raiva e por outras doenças transmitidas por esta mordida. O custo financeiro aproxima-se de quinze milhões de dólares.
Humanos não são a presa preferencial do morcego vampiro, porém, na escassez de outro alimento, este animal pode se alimentar do sangue das pessoas. Dados não muito atuais, do ano de 2004, indicam 22 mortes por raiva transmitida pelo contato com morcegos. O risco de transmissão ocorre não só nos acidentes com mordedura, mas também arranhaduras, lambeduras e o contato direto quando a pessoa pega o morcego com a mão.
Os morcegos hematófagos são muito eficientes na propagação da raiva porque quando vão se alimentar de suas presas levam o vírus em sua saliva. Porém, os morcegos hematófagos não são os únicos capazes de transmitir a doença, as espécies que não se alimentam de sangue também podem transmitir por meio das outras formas de contato. Assim, a transmissão por morcegos não hematófagos ocorre através do contato direto, acidental.
Com o controle, bastante eficaz, da raiva de cachorros e gatos através da vacina e do controle da população desses animais nas ruas, morcegos são o maior risco de transmissão na atualidade. Por conta da destruição de seu hábitat, os morcegos têm se adaptado ao espaço urbano onde ocupa casas e galpões abandonados. O resultado deste processo é o aumento do número de acidentes com ataques a animais e humanos. Morcegos encontrados em situação anormal, caído no chão, voando durante o dia, entrando nas casas e comércios, devem ser considerados como risco. Nesta situação devem ser cobertos com balde ou pano, e o Centro de Controle de Zoonoses deve ser chamado para fazer sua remoção. O contato direto com as mãos ou outras partes do corpo nunca deve acontecer.
* Bióloga, mestre e doutora em Saúde Pública