Cada um de nós tem a sua biologia individual. Não há procuração para a gene. Não se trata de biologia ou teologia, mas podemos fazer o didático contraste: o Messias bíblico quer dizer ungido. O Messias político, defenestrado na pretensão de ser ministro do Supremo Tribunal Federal, saiu do Senado da República recebendo a extrema unção, a morte política batendo à porta.
O “não” inédito, desde os tempos de Floriano Peixoto, é enfático substantivo, que serve em tempos presentes para interpretações diversas, com inevitáveis repercussões neste turbulento 2026. O que aconteceu: o presidente da República faz a indicação para preencher uma vaga. O presidente do Senado conduz uma sabatina que aprova ou não - sempre foi uma formalidade dizer “sim”. Desta vez, porém, o “não” foi brado fulminante.
O que quer dizer isso? Que o Executivo não domina o Congresso, que se mostra forte para de uma cajadada só acertar o alvo presidencial e seu queridinho para a mais alta Corte. Claramente, a conquista de um aliado. Sendo assim, ficam de fora as constitucionais premissas de “notável saber jurídico” e “reputação libada”. Aqui está o punctum saliens, o nó: juiz tem que ser independente, nunca se submetendo a qualquer fator externo, para proferir decisões de acordo com sua consciência. Não é bem isso o que temos visto, desanimador para a sociedade, que assiste incrédula a espetáculos deploráveis por todos os lados, isto é, os Poderes distantes de Montesquieu, que almejava a harmonia entre eles, para evitar abusos de poder e garantia para a ordem política. Entre nós, a teoria da separação dos Poderes não está funcionando: o Executivo quer legislar, o Legislativo investigar e o Judiciário interferir, não exatamente dentro de suas atribuições.
Onde a sociedade poderia se encaixar nesse cenário? Ela não pode escolher seus legítimos representantes na mais alta instância da esfera jurídica. O chamado “leigo” adquire um tom pejorativo para desqualificar: uma aberração cultural, excludente de sábios em todas as áreas, que rejeitam o tipo de cegueira dosa. O Direito não é exclusividade para alguns. Não se pode empurrar certos desfechos goela abaixo. Mas querem ignorar isso. Exatamente essa a grande lição subsequente ao não ungido: a sociedade tem direito a representação legítima, ver suas maiores aspirações atendidas e menos discursos vazios. Nossas goelas estão saturadas.
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