“A corrupção dos melhores é péssima” (André Maurois)
Na marcha da insensatez que deprime o mundo, a guerra entre os EUA, Israel e Irã parece normalizar-se aos olhos do mercado, dos analistas geopolíticos, dos governantes, dos militares e do povo em geral.
Os sobressaltos ante declarações intempestivas, venham de onde vierem, servem apenas a “pitonisas detentoras da bola de cristal” que visam lucro.
O fato: a guerra está longe de seu fim.
Para além dessa guerra, os Estados Unidos vão esperneando, mas se ajustando aos novos polos de poder e tentam reagir à ascensão da China e da Índia, assim como ao empoderamento da outrora degradada Rússia e da pacifista Europa.
A disputa por recursos naturais ainda insubstituíveis, a desinformação como arma de controle, a polarização política antolhada, o dilema da segurança e o aumento de arsenais (incluindo-se o nuclear), a crise climática, as migrações e, mais recentemente, a revolução da IA compõem o cenário de uma peça dramática que impactará a humanidade por bom tempo.
É um mundo de ponta-cabeça e por aqui na Terra de Santa Cruz não estamos vacinados contra o vírus da incompreensão que toma conta de nosso dia a dia.
Diante dessa dramaticidade é hora de pensar as questões filosóficas que interferem em nossa caminhada cidadã, armando-nos para o combate moral que se avizinha rapidamente.
E digo combate moral, consciente de que esse é, de fato, o campo de batalha em que pelearemos doravante.
Para tratar desse incômodo, tomo por base o consagrado escritor francês André Maurois, que nos deixou como legado a impressionante obra Diálogos sobre o Comando (Bibliex, 1996), na qual conversa consigo mesmo, por meio de dois personagens supostamente antípodas, um tenente e um professor de filosofia, meditando sobre a liberdade e a autoridade.
Em uma de suas frases mais marcantes, Maurois afirma que as liberdades são conquistadas por homens que aprendem lentamente, eles próprios, a se governar
Contudo, e paradoxalmente, entende que a democracia pura exigiria também demonstrar força para evitar ter que dessa mesma força se servir.
Eis a questão: liberdade ou autoridade.
Parecendo ler o momento atual de maniqueísmo opinativo, Maurois alega que não havia felicidade sem liberdade e que a escravização do espírito, a proibição de pensar, de falar e de julgar os que governam – e legislam, e julgam - não é suportável.
Tais execráveis restrições, com o tempo, levam a autoridade a obliterar-se por manter em seu entorno apenas fanáticos e bajuladores que substituem os verdadeiros amigos, impedindo-se que a verdade lhe seja descortinada.
Reconhece que nas democracias poderia haver instabilidade, desordem, tibieza e corrupção (opa, entro em terreno pantanoso que enlameia há tempo nossas plagas) e, por isso, seus inimigos a criticam como fraqueza. Mas logo o escritor lança a pergunta: seriam melhores, por isso, os regimes ditos fortes?
A instabilidade é menos perigosa quando submetida aos caprichos de um homem, de seus favoritos ou de suas amantes? Ou quando é resultante dos votos de uma assembleia ou de uma nação?
Descendo ao campo militar, e com a experiência de quem vivenciou diretamente a 1ª GM, alerta ao próprio soldado que é preciso não esquecer que a guerra é não só militar, mas também e principalmente política. E, em consequência, é o respeito mútuo entre o político e o militar um indutor de sucesso.
Para Maurois não há liberdade sem disciplina - e não considera esse atributo exigível apenas aos fardados -, nem autoridade legítima sem limites. Rompido esse equilíbrio, resta apenas o abuso, travestido de legalidade, a defender uma suposta liberdade.
Como síntese de tantos e profícuos pensamentos, conclui que quando a liberdade se corrompe, vira desordem. Quando a autoridade se desvia, torna-se tirania.
No cenário atual, pensando no mundo, mas principalmente no nosso país, onde a crise de confiança se apresenta avassaladora e corrói as bases da boa sociedade, não basta proclamar valores. É preciso sustentá-los. O combate moral deixou de ser escolha, é necessidade de sobrevivência.
Se falharmos como indivíduos consciente de direitos e deveres, não serão o inimigo externo, organizações criminosas ou catástrofes e epidemias que nos subjugarão, mas a deterioração interna. E essa somente nós somos capazes de combater!
*General Otavio Santana do Rêgo Barros
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