No momento em que a humanidade convive com o número elevado de perdas de vidas humanas, causando danos emocionais, é preciso refletir sobre o evento morte.
Para a ciência, morte é a perda das funções vitais que animavam determinado corpo num viés reducionista biológico, ou seja, enquanto um tipo de explicação estabelece uma relação direta e pontual de um determinado evento orgânico e um tipo específico de comportamento.
Curioso notar que, embora seja a única certeza da vida, a grande maioria das pessoas, pouco importando sua idade, tem muita dificuldade de lidar com esse assunto e associa a morte com sentimentos de perda, medo, tristeza, dor e saudade. Pesquisas indicam que para 73% dos brasileiros esse assunto é quase que proibido.
A ausência da reflexão sobre o assunto prejudica o desenvolvimento de sentimentos individuais e a melhor compreensão de si mesmo e das leis da vida. Sobre essa questão diz a psicóloga Maria Cristina Guarnieri, no livro Do Fim ao Começo - Falando sobre Perdas, Luto e Mortes, que "se você sabe o quanto algo dói, é mais fácil desenvolver o processo de superação e até desenvolver a empatia em relação aos outros".
Acontece que a perda das funções vitais de um corpo está longe de significar aniquilamento, destruição total, transformação para o nada, separação eterna. Isso porque o fluído vital, enquanto um subproduto do fluido cósmico que existe em todos os seres vivos e que nos seres hominais chamamos de alma, ao estar ligado ao corpo físico, e de espírito, quando o corpo perde as funções vitais, é indestrutível e por isso imortal.
Com a morte dos seres orgânicos a matéria inerte se decompõe e vai formar novos organismos e o princípio vital volta à massa de onde saiu, pois somente o produzimos quando estamos encarnados. Kardec esclarece que “morto o ser orgânico, os elementos que o compõem sofrem novas combinações, de que resultam novos seres, os quais haurem na fonte universal o princípio da vida e da atividade, o absorvem e assimilam, para novamente o restituírem a essa fonte, quando deixarem de existir.
Os órgãos se impregnam, por assim dizer, desse fluído vital e esse fluído dá a todas as partes do organismo uma atividade que as põe em comunicação entre si, nos casos de certas lesões, e normaliza as funções momentaneamente perturbadas. Mas, quando os elementos essenciais ao funcionamento dos órgãos estão destruídos, ou muito profundamente alterados, o fluído vital se torna impotente para lhes transmitir o movimento da vida, e o ser morre.
Mais ou menos necessariamente, os órgãos reagem uns sobre os outros, resultando essa ação recíproca da harmonia do conjunto por eles formado. Destruída que seja, por uma causa qualquer, esta harmonia, o funcionamento deles cessa, como o movimento da máquina cujas peças principais se desarranjem. É o que se verifica, por exemplo, com um relógio gasto pelo uso, ou que sofreu um choque por acidente, no qual a força motriz fica impotente para pô-lo de novo a andar.
Num aparelho elétrico temos imagem mais exata da vida e da morte. Esse aparelho, como todos os corpos da Natureza, contém eletricidade em estado latente. Os fenômenos elétricos, porém, não se produzem senão quando o fluído é posto em atividade por uma causa especial. Poder-se-ia então dizer que o aparelho está vivo. Vindo a cessar a causa da atividade, cessa o fenômeno: o aparelho volta ao estado de inércia. Os corpos orgânicos são, assim, uma espécie de pilhas ou aparelhos elétricos, nos quais a atividade do fluido determina o fenômeno da vida. A cessação dessa atividade causa a morte.”.
Santo Agostinho, filósofo, escritor, bispo e teólogo cristão católico responsável pela elaboração do pensamento cristão, em seu livro “Confissões” revela os recantos de sua alma e os caminhos da fé às angústias do mundo, ressaltando que é preciso “compreender para crer, crer para compreender”, em sua oração “O que é a morte” diz que: “A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do Caminho. Eu sou eu, vocês são vocês. O que eu era para vocês, eu continuarei sendo. Me deem o nome que vocês sempre me deram, falem comigo como vocês sempre fizeram. Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do Criador. Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos. Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim. Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo. Sem nenhum traço de sombra ou tristeza. A vida significa tudo o que ela sempre significou, o fio não foi cortado. Porque eu estaria fora de seus pensamentos, agora que estou apenas fora de suas vistas? Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do Caminho… Você que aí ficou, siga em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi.”.
É de se refletir, portanto, que o fluido vital viabiliza e impulsiona a coesão molecular, pois é ele que congrega todas as células independentes e as interliga em íntima relação. Ele se manifesta conforme a necessidade e a natureza vibratória de cada plano em que o espírito do homem atua e sua falta implicaria na desintegração e no desaparecimento instantâneo da vida.
Aliás, ao estudar a possibilidade da existência de duas situações diferentes e simultâneas para determinado corpo subatômico, a física quântica guarda alguma proximidade com tais conceitos filosóficos e religiosos. A física quântica estuda essa relação a partir da chamada dualidade onda-partícula, ou seja, quando uma partícula se comporta ora como partícula e ora como onda. É assim que surgem diversas hipóteses teóricas de estudo como, por exemplo, a teoria dos vários mundos, pela qual se diz ser possível a existência de diversas alternativas para cada indivíduo.
Embora exista resistência no círculo científico em relação a união da física quântica e o espiritualismo, é fato que vários pesquisadores estão refletindo sobre a relação existente entre essas duas áreas do conhecimento. Espera-se, portanto, que a física quântica possa contribuir para o entendimento de como ocorre a interação entre os fluidos espirituais e a matéria.
Enfim, é preciso que a morte, enquanto o fenômeno pelo qual o fluído vital se desliga completamente do corpo, tornando-o inerte, e retorna à massa de onde saiu, repita-se, enquanto a única certeza da vida, seja encarada com mais naturalidade até mesmo para uma melhor preparação emocional das pessoas.
Se a morte é a porta pelo qual ingressamos no mundo espiritual, lembremos de Eclesiastes 12:7 ao dizer que “o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”.
Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Boa Nova Editora. 2004. Livro Primeiro. Cap. IV. Princípio Vital. Pergs. 63, 64, 70.
Paulo Eduardo de Barros Fonseca