Como deve agir um país quando é ofendido em sua integridade econômica, militar, tecnológica, política e psicossocial por uma ação de antagonistas externos?
De chofre, eu diria: usar a lei de Talião. Mas, serenamente, não é fácil responder.
O mundo vive uma guerra híbrida, na qual essas pressões existem, incomodam e, muitas vezes, ferem de morte países ou instituições.
O Brasil, por óbvio, não está fora desse ambiente. E, nesse jogo, corremos até o risco de ser a caça, e não o caçador.
Portanto, é mister pensar, como caçador, a Defesa Nacional e dar-lhe a prioridade cabível.
Precisa, com urgência, entrar nas inquietações da sociedade. O desleixo para com ela traz profundos sofrimentos, e a história está aí para comprová-los.
Comecemos do começo.
Não se constrói uma Defesa eficaz apenas comprando material de emprego militar no exterior. É preciso formar, internamente, pessoas capazes de projetá-lo, produzi-lo e aperfeiçoá-lo.
Investir em profissionais de STEM, sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, significa fortalecer simultaneamente a economia e a Defesa.
Uma Base Industrial de Defesa robusta gera empregos qualificados, estimula a inovação e aproxima universidades, empresas e instituições militares em um projeto maior.
Com os parâmetros que medem a paz mundial modificados, as grandes potências já não possuem as mesmas amarras para agir, pelas armas ou por outros tipos de pressão, em prol de seus interesses.
Vejamos alguns exemplos.
Depois de meses de pressões e bravatas de Washington, a Dinamarca negociou a ampliação da presença militar americana na Groenlândia, tentando preservar, quem sabe, sua soberania.
Em recente declaração, enquanto assistia ao lançamento de um míssil com capacidade nuclear, o presidente Macron afirmou: “Para ser livre, é preciso ser temido. E, para ser temido, é preciso ser poderoso.”
No outro extremo do mundo, Taiwan enfrenta pressões crescentes da China por sua reincorporação ao território continental, enquanto o apoio militar dos Estados Unidos, outrora considerado incondicional, parece cada vez mais incerto.
Há mais de dois milênios, Tucídides registrou, na obra A Guerra do Peloponeso, a mensagem do emissário de Atenas aos habitantes de Melos: “Os fortes fazem o que podem. Os fracos sofrem o que devem.”
A fraqueza meliana não é apenas uma lembrança histórica. É um alerta a quem não possui meios para sustentar suas escolhas.
A independência e a consequente liberdade de ação não se proclamam. Constroem-se. E custam dinheiro.
O nosso orçamento de Defesa precisa crescer ano a ano, com planejamento, prioridades e responsabilidade fiscal, buscando alcançar 2% do PIB e aproximar nosso esforço daquele realizado por países de dimensão estratégica semelhante à brasileira.
Projetos estratégicos na área militar não podem sofrer oscilações orçamentárias a cada governo.
Carecemos ainda de uma Estratégia Nacional de Segurança. Ela deve reunir economia, diplomacia, indústria, ciência e poder militar em torno de objetivos comuns.
Não podemos esperar que uma crise revele nossas fragilidades. E elas são muitas.
A próxima disputa eleitoral oferece-nos uma oportunidade para mudar essa discussão.
É o momento de exigir dos candidatos transparência e compromissos concretos com a Defesa Nacional.
Como pretendem financiar nossas capacidades, formar profissionais, proteger nossas riquezas e garantir nossa autonomia?
Não bastam declarações inócuas de apreço pelas Forças Armadas. Precisamos de propostas que possam ser conhecidas, debatidas e cobradas pela sociedade.
Soberania, palavra tantas vezes usada debalde, é ter liberdade para decidir o próprio destino e meios para sustentá-lo.
Uma das escolhas mais importantes para o futuro brasileiro é deixar de tratar a Defesa como preocupação exclusiva dos militares e reconhecê-la como parte indispensável de um projeto nacional de desenvolvimento.
Sem alarmismo, a esquadra de Atenas já ancorou em nossas costas. O emissário já desembarcou?
*General de Divisão da Reserva - General Otávio Santana do Rêgo Barros