Vou tomar de licença poética, ou seria mais adequado dizer, tomar de licença científica e usar a frase de Lavoisier "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" para tratar da questão do lixo. Quando enterramos lixo no aterro sanitário estamos enterrando dinheiro e pagando para fazer isso.
Se tomarmos como base todo o lixo que existe em nossas casas neste presente momento, veremos que uma parcela considerável é constituída por matéria orgânica, uma outra parte é composta por produtos recicláveis e apenas uma fração muito diminuta precisa ser dispensada em aterros porque constituem o que mais tecnicamente é chamado de rejeito, ou seja, não podemos dar outra destinação que não seja enterrar ou queimar. São papéis higiênicos, fraldas, guardanapos e similares.
Vamos tratar primeiro da porção orgânica do lixo. O único problema desta fração é que ela existe em grandes volumes, ou seja, está concentrada. Cascas de frutas, talos, restos dos pratos que vão parar no lixo, na natureza entrariam em decomposição e seriam transformados em adubo. Nas cidades, o volume deste detrito impede que ele se decomponha de forma natural porque, antes que sua transformação em adubo se completasse atrairia uma série de animais sinantrópicos como baratas e ratos, além de produzir mal cheiro. Esta parte do lixo é a parte de chamamos compostável porque pode ser usada para esta produção de adubo desde que seja criada a estrutura da composteira.
A parcela reciclável do lixo já é bastante conhecida de todos, são os vidros, os plásticos, os metais e os papéis. Todos eles podem voltar para o sistema produtivo na forma de matéria prima e, portanto, têm valor de venda. Quando este tipo de produto vai parar no lixo comum ele alimenta um ciclo de miséria porque as pessoas em condição econômica mais precária irão ter contato com o lixo para retirar estes resíduos que podem ser vendidos. Quando ostentamos nosso título de reciclar enorme parte do alumínio, estamos falando dessas pessoas que reviram lixeiras em busca de latinhas.
Existem ainda os resíduos de eletroeletrônicos, são produtos que contêm grandes quantidades de metal e, portanto, muito valor embutido. Sua reciclagem é cara e no nosso país, quase sempre, é feita de forma rudimentar o que impede o completo aproveitamento destes metais. Para fornecer um parâmetro, apenas 25% do ouro contido em placas de telefone celular ou computador é extraído através de metodologias caseiras enquanto esta porcentagem sobe para 95% no caso da reciclagem industrial das mesmas placas.
Como nossa Política Nacional de Resíduos Sólidos trata destas questões? Muito bem elaborada em 2010, a PNRS prevê as etapas de compostagem e reciclagem que representam a economia circular na qual os resíduos não se acumulam no ambiente, mas voltam para o ciclo produtivo. Além disso, ela trata da educação ambiental como ferramenta para redução do lixo produzido. Porém, embora tudo esteja previsto na lei, nesses nove anos em que ela está em vigor, não percebi mudanças em nosso padrão de consumo que permitam diminuir os resíduos de forma verdadeira.
Diminuir não depende apenas da população, embora seja verdade que muitas das nossas escolhas possam resultar em menor quantidade de lixo, não temos poder de decisão no que diz respeito à enorme quantidade de embalagens dos produtos, por exemplo. Vamos pensar na caixa de papelão que envolve as pastas de dente, independe de nós a decisão de consumi-la ou não. Percebo uma grande boa vontade por parte das pessoas no sentido de preservar o meio ambiente, os casos recentes das sacolinhas de supermercado e do canudo de refrigerantes demonstram esta preocupação por parte da população e sua adesão a qualquer ação que, no entender desta população, possa contribuir para melhoria ambiental. Ambas as ações foram motivadas por uma boa intenção, porém com poucos resultados efetivos porque tratam de um recorte do problema maior. Não adianta trocar o canudo por copinho plástico quando o problema é, na verdade, o plástico e não a forma que a ele foi dada, canudo ou copo. Este exemplo me leva a pensar em que talvez a caixa da pasta de dente possa ser a próxima bandeira ambiental que levantaremos: “Todos contra a caixinha de papelão”, outra ação pontual, outra febre das pessoas, poucos resultados efetivos. Não precisamos de ações pontuais, precisamos de políticas públicas pensadas de maneira global.
Se nosso resíduo sólido for corretamente administrado, apenas rejeitos irão para o aterro sanitário. Se não repensarmos nossas ações enquanto sociedade, não adotarmos uma reciclagem verdadeiramente efetiva, não implantarmos estruturas para compostagem dos resíduos orgânicos, enfim, não percebermos que não existe lixo, que resíduo tem valor, enfrentaremos grandes problemas no futuro. O planeta é finito e nossa capacidade de produzir lixo é infinita!
* Bióloga, mestre e doutora em Saúde Pública
Fernanda Cangerana