Em São Paulo ainda é comum explicar a violência urbana por meio de uma relação direta entre pobreza e criminalidade. A comparação com outras grandes capitais mostra que essa associação é frágil: cidades igualmente grandes, desiguais e marcadas por exclusões históricas conseguem conviver com níveis menores de violência. A miséria, portanto, não é uma sentença automática para o crime.
A política de “tolerância zero” adotada em Nova York nos anos 1990, durante a gestão do prefeito Rudolph Giuliani e do comissário William Bratton, baseou-se na teoria das “janelas quebradas”, segundo a qual sinais visíveis de desordem — pichações, vandalismo, evasão de tarifa, pequenos furtos, consumo de drogas em público — criam um ambiente permissivo que favorece crimes mais graves. A polícia passou a agir de forma firme contra infrações consideradas “menores”, como pular catraca no metrô, vandalismo e pichações, comércio ilegal e desordem urbana. A aposta era que quem cometia pequenos delitos muitas vezes estava envolvido em crimes maiores, e que a presença constante da polícia alteraria a dinâmica dos espaços urbanos. Os resultados incluíram queda expressiva dos índices de homicídio e crimes violentos, além de melhora na percepção de segurança, embora a estratégia tenha gerado críticas por abusos, discriminação racial e encarceramento excessivo.
Paris adota um modelo de segurança pública baseado na forte presença do Estado, coordenação centralizada e prevenção, com atuação integrada da Polícia Nacional, da Prefeitura e de serviços sociais. O policiamento é visível e territorializado, com agentes a pé, em bicicletas e patrulhas fixas em áreas sensíveis, aliado a amplo uso de tecnologia, como câmeras de vigilância e monitoramento em tempo real, especialmente após os atentados terroristas da última década. A cidade investe também em inteligência, controle de grandes eventos e proteção de espaços públicos, ao mesmo tempo em que mantém políticas sociais robustas voltadas à educação, habitação, integração de imigrantes e mediação comunitária. O modelo parte do princípio de que segurança não se sustenta apenas pela repressão, mas pela presença constante do Estado, pela ordem urbana e pela redução das vulnerabilidades sociais, embora enfrente críticas relacionadas a tensões étnicas e excesso de vigilância em determinados bairros.
Cingapura mantém um dos sistemas de segurança mais eficazes do mundo ao combinar policiamento eficiente, leis severas e aplicação rápida e previsível das normas, com tolerância mínima a crimes e desordem urbana. A polícia atua de forma visível e tecnológica, apoiada por ampla vigilância por câmeras, inteligência integrada e resposta rápida, enquanto o sistema judicial é ágil e rigoroso, o que reduz a sensação de impunidade. Paralelamente, o país investe em educação, habitação pública, planejamento urbano e controle social informal, criando ambientes organizados e de baixo risco. A segurança não se apoia apenas na repressão, mas em disciplina coletiva, normas sociais bem definidas e confiança nas instituições, ainda que o modelo seja frequentemente criticado por restrições a liberdades individuais.
No Brasil de maneira geral e em São Paulo, especificamente, o caminho do crime não representa a única escolha para os menos favorecidos. Ao contrário, milhões escolhem diariamente o caminho árduo do estudo e trabalho com vistas ao progresso pessoal. Por que, diante de condições materiais semelhantes, alguns resistem enquanto outros cedem ao crime? A resposta exige ir além das explicações fáceis.
A família que consegue oferecer vínculos afetivos, limites e referências éticas, funciona como primeira barreira contra a violência. Não se trata de idealização, mas de reconhecer que ambientes familiares estáveis fortalecem a capacidade de resistência diante da adversidade. Onde esses vínculos são frágeis ou rompidos, o risco social aumenta.
A escola exerce papel igualmente decisivo. Ela pode — ou não — oferecer sentido, pertencimento e horizonte de futuro. Escolas precarizadas, descontinuadas ou meramente formais falham em cumprir essa função, enquanto experiências educativas consistentes ampliam a possibilidade de escolhas construtivas, mesmo em contextos adversos. O indivíduo precisa concluir seus anos de estudo no ensino fundamental e médio apto a concorrer em pé de igualdade nos concursos vestibulares e o ensino superior precisa representar crescimento pessoal e profissional.
Comunidades religiosas, independentemente da denominação, frequentemente oferecem acolhimento, códigos morais, redes de apoio e disciplina simbólica. Em muitos territórios vulneráveis, elas funcionam como instâncias de proteção social informal, ajudando a conter trajetórias de violência.
A insegurança urbana, portanto, não poderá ser resolvida em uma única gestão em prazos curtos. Trata-se de um problema histórico, acumulado e multifatorial, que envolve Estado, sociedade e indivíduos. Combater a miséria e a violência exige políticas públicas contínuas, mas também o fortalecimento das instituições sociais que moldam escolhas ao longo da vida.
*Bióloga e escritora
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