· Sempre vi a Justiça representada com venda nos olhos, para não ver a quem, e balança nas mãos para pesar atos praticados para decidir como proceder. Surpreso, vejo agora que o Superior Tribunal do Trabalho está preferindo lançar um olhar cromático para os processos: vermelho e azul. Decidir pela cor. Não entendi direito, mas se refere a quem tem ou não tem razão.
Nunca vi o Direito distribuindo a Justiça como forma “democrática”, “progressista”, “conservadora” ou seja o que for, quando estiver fora das balizas da lei. Isento, sem alternativas pessoais. Não ponho fé em “mão pesada ou “leve” e severas “câmaras de gás” nos tribunais. Na mais alta Corte do trabalho, dois de seus ministros explicitaram como agem, dividindo-se entre “vermelhos”, os favoráveis patronais, e os “azuis”, pró-empregados. Talvez seja uma letologia, o esquecimento temporário de uma palavra adequada, puxando o “lethe” grego, esquecimento, com “logos”, palavra. Alquimia para contornar o lapso. Não é fácil adotar cor como sistema adotado a priori.
No plano geral, a dificuldade aumenta. É possível ver uma cor distorcida para quem é daltônico. Também assim para míopes ou olhares oblíquos. Catarata também pode atrapalhar. Para a letologia, poderia ser “não enxergar um palmo adiante do nariz”, ou a técnica “fora dos autos”. provocadora de inépcias e embaraços legais sem sim. Errar não só é humano, como em Direito repetidamente possível.
Assistimos, a isso, perplexos, na semana que passou, dentro de um espaço que deveria ser acadêmico por excelência. É ali que circulam, ou devem circular, as ideias, os enfoques, as discordâncias permeadas pela dialética. É o berço da formação, da graduação, da pós-graduação, do doutorado. É o nascedouro das mais variadas atividades e profissões, essenciais para a sociedade, da humanidade mesmo. Se essa é a razão de ser, no caso da USP desde a sua criação inspirada pelo jornalista Júlio Mesquita, em tempos que o auge da educação só era obtido na França.
Sem ser profeta do óbvio, não se pode conceber o desenvolvimento do saber brigando por um cardápio, invadindo e depredando a reitoria da instituição, atacando encapuzados (coisa de bandido!), tragando cannabis, portando facas, canivetes, bastões e pedaços de pau. Desde quando isso é coisa de universitário?!
Esse é o meu olhar trabalhista de cor vermelha, Já o azul acha absolutamente normal quebra, arrebentar e destruir, como forma de insulto após gritos de jargões ideológicos procedentes de várias correntes, nunca concordantes entre si. A Universidade São Paulo é pública. Greve quem faz é trabalhador. Estudante está lá para estudar. É de graça. A sociedade tem o direito de esperar muito em troca.
*Jornalista e escritor
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