O quinto Objetivo do Desenvolvimento Sustentável trata da igualdade entre os gêneros. Durante todo o Século XX as mulheres reivindicaram direitos iguais em nosso país. As primeiras demandas femininas foram pelo direito ao voto, a educação e a emancipação feminina. Na década de 1920, no Rio Grande do Norte, a educadora Nísia Floresta foi capaz de traçar um paralelo entre as realidades brasileira e européia dedicando sua obra à condição feminina com ênfase para a educação.
Durante os anos 1960 o movimento feminista no Brasil lutou por direitos legais e sociais, abordando os temas relacionados a família, ao mercado de trabalho e aos direitos reprodutivos e sexuais. Na atualidade em nosso país a Constituição Federal garante a igualdade entre os gêneros desde 1988 e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) impede que homens e mulheres exercendo o mesmo cargo ou função recebam salários diferentes. Embora no Brasil não exista diferença legal entre homens e mulheres esse permanece sendo um tema que provoca controvérsias.
A análise de alguns dados possibilitará uma correta análise desse tema. As mulheres estudam por mais tempo em nosso país e o número das que concluem o terceiro grau é superior ao número dos homens. Um dos assuntos que suscita debates é o fato de que os salários médios das mulheres permanecem menores do que os salários médios dos homens. Outro dado que requer análise é a pequena participação das mulheres em cargos de chefia. Em ambos os casos a maior escolaridade deveria refletir em salários maiores e em cargos superiores.
Na atualidade percebo dois grupos muito distintos quanto à interpretação dessas informações. De um lado, o grupo que acredita que as desigualdades permaneçam em nosso país a despeito do que as leis regulam, e que indicam as diferenças salariais e de cargos de chefia como uma evidência de que, embora melhor preparadas as mulheres não conseguem ascensão profissional. O outro grupo, que acredita que os problemas de desigualdade de gênero não são mais uma realidade, justifica as diferenças de evolução na carreira como consequência da escolha das mulheres que colocariam maior foco na criação dos filhos e não buscaria o maior salário ou a promoção, cientes de que em ambos os casos a dedicação exigida seria maior.
Descobrir qual dos grupos está com a razão exigiria a condução de uma pesquisa por meio de entrevista com amostra representativa do grupo das mulheres, perguntando às próprias interessadas qual a explicação para as diferenças apontadas acima. Porém, embora o debate esteja mais focado nessas questões explanadas, penso que existam outras abordagens necessárias e relevantes quanto a igualdade de gênero. No meu entendimento o problema da desigualdade está relacionado com práticas resolvidas na lei, mas perpetuadas na sociedade.
A educação dos filhos ainda aparece como responsabilidade materna na maior parte das famílias e, até muito recentemente, as escolas também enxergavam na mãe a pessoa para a qual deveria endereçar as questões infantis. Em grande parte dos lares brasileiros as mulheres ainda arcam com quase todo, quando não com todo, serviço doméstico. Para resolver essa forma de desigualdade a sociedade precisaria escolher uma revisão de seus valores e suas atitudes. Por que essa revisão não é feita?
Ainda existe muito temor na mudança que esse novo paradigma representa, a verdadeira igualdade entre homens e mulheres. Acredito que o temor esteja fundamento no não reconhecimento de nossos papéis sociais de gênero. Muitos perguntam, qual o mal no modelo de família em que o marido permaneça provedor financeiro e que a esposa permaneça gestora da casa e dos filhos? E não há mal algum. Porém como solucionar os inúmeros casos em que esse modelo falhou? Os casos em que um dos dois cônjuges não assumiu sua parte na responsabilidade por essa administração? Não estamos falando de um pequeno número de pessoas.
Muito prudentemente nossa civilização, em constante evolução, aponta para um futuro em que homens e mulheres adultos sejam capazes de sua manutenção financeira e também do atendimento às suas necessidades básicas de alimentação, higiene e qualidade de vida. Como todo processo de transição ainda existe um descompasso, mas tudo indica que seremos exitosos na condução dessa mudança.
Colunista Fernanda Cangerana