Conforme combinado na última coluna de 2020, vou dedicar alguns textos aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável- ODS. Seguindo a ordem na qual eles foram propostos, vamos começar entendendo melhor a pobreza. Podemos estimar que existam hoje no mundo 800 milhões de pessoas que vivem com U$ 1,25 por dia, o que representaria R$ 6,63, em valores aproximados considerando a cotação do dólar em 20/01/2021, um pouco menos do que R$200,00 mensais. Considerando esses valores e conhecendo a realidade em nosso país podemos entender que o número de pessoas com renda insuficiente ainda é muito grande.
As mais modernas abordagens da pobreza incluem múltiplos fatores neste debate e vão muito além da renda e possibilidade de consumir. Para uma correta análise é preciso considerar também os fatores relacionados com a saúde como nutrição e mortalidade infantil; fatores relacionados com educação como o número de anos estudados; e, fatores relacionados ao padrão de vida que tratam de acesso ao saneamento, a eletricidade e condições da habitação. Em experiências no interior do nosso país, fora dos circuitos turísticos, pude observar que uma grande parcela de nossa população não tem as condições mínimas nem de rendimentos, nem de qualidade de vida.
Vamos aprofundar um pouco nossa análise sobre a pobreza. Como reverter este quadro e atingir o ODS número 1, erradicação da pobreza? Seria a melhor forma o implemento/aumento de programas assistenciais? Sem questionar a necessidade do socorro imediato para os muito vulneráveis, e, segura de não estar “descobrindo a roda”, devemos enxergar que esses programas precisam ser pensados com começo, meio e fim. É preciso ter metas claras que permitam ao indivíduo assistido atingir a independência financeira e a capacidade por sua própria manutenção. Para que isso seja possível enxergo dois pilares sem os quais não será possível atingir nenhuma meta nesta direção: capacitação para o mercado de trabalho e oferta de empregos dignos com salários justos.
A capacitação passa necessariamente pela revisão da educação que precisa ser vista como caminho para atingir a plenitude do ser humano em todos os aspectos possíveis. É indispensável capacitar pessoas para múltiplas funções sociais que vão desde o preparo para exercer funções remuneradas, passam pelo entendimento do sistema bancário, do cuidado com o espaço doméstico, da compreensão dos processos de saúde e doença e chegam ao conhecimento para cuidar das próximas gerações. A educação é o caminho que permitirá verdadeiro desenvolvimento social em nosso país.
Empregos dignos com salários justos configuram o desejo maior de todos os seres humanos e, para atingi-lo, é necessário entender que nunca haverá oferta de empregos e renda se não houver crescimento da economia. O crescimento econômico acelerado de países como China e Índia pode ser apontado como a razão pela qual milhões de pessoas saíram da pobreza. Muitos acreditam que o crescimento da economia gera degradação ambiental e que esta seria a causa dos problemas ambientais enfrentados no Brasil e no mundo na atualidade. Não estão de todo errados aqueles que pensam desta forma, mas é necessário entender a relação do Homo sapiens com o planeta para desmistificar esta questão.
Os bilhões de pessoas que habitam a Terra precisam de recursos que serão retirados do planeta. As pessoas precisam de alimentos, água, e vestimenta; as pessoas produzem esgoto e lixo. Esta verdade se aplica a qualquer sistema econômico e se reproduz tanto em países desenvolvidos na Europa quanto em países extremamente pobres na África subsaariana. É ilusório acreditar que podemos atender às necessidades humanas sem causar impactos ambientais. Causaremos impactos por desenvolver a economia e proporcionar qualidade de vida para as pessoas, alimentos necessários, água tratada. Causaremos impactos por extrair de forma não planejada esses mesmos recursos. A pobreza é inimiga da conservação ambiental. Uma, entre inúmeras evidências, é a troca de ovos de tartaruga por ovos de galinha, forma que ambientalistas encontraram no passado para evitar que populações carentes e famintas se alimentassem dos ovos que as tartarugas colocavam nas praias.
As idéias que apresento são minha forma de enxergar a maneira pela qual poderemos erradicar a pobreza. Passam pela revisão de algumas crenças fortemente arraigadas na sociedade. A escola pode ser revista. Muito além das disciplinas pedidas nos concursos vestibulares, muito além da discussão sobre valores. Precisamos ensinar marcenaria, gastronomia, economia, noções de psicologia e puericultura. O equivocado antagonismo entre ambiente e economia precisa ser revisto. Congelar a economia não preservará a natureza, ao contrário, irá criar uma onda de desvalidos, irá impedir os investimentos necessários em saneamento, saúde, educação. Criará um circulo vicioso de pobreza e degradação.
Precisamos caminhar na direção de estabelecer um círculo virtuoso de economia em crescimento, oportunidades de emprego e renda para todos, preparo acadêmico das próximas gerações para os novos desafios que irão surgir permitindo o contínuo crescimento da economia. Talvez, adotando esta trajetória, possamos atingir um país no qual a pobreza esteja erradicada em todas as suas múltiplas dimensões.
Fernanda Cangerana