A compatibilidade entre o discurso e a prática, entre o que falamos e fazemos é um dos maiores desafios que toda pessoa enfrenta no seu cotidiano, sobretudo porque a nossa credibilidade depende dessa coerência. A filosofia define coerência como ordem, conexão, harmonia de um sistema de conhecimento, critério da verdade, ausência de contradição. Nesse passo é plausível afirmar que coerência é a disciplina entre o falar e o fazer, ou seja, é a harmonia entre o discurso e a prática, sem contradição.
Mas, segundo o ditado popular: “falar é fácil; fazer é que são elas...”. Por ser relevante, na bíblia Mateus já relata a importância e a necessidade de se manter coerência entre o discurso e a pratica quando diz: “Então, Jesus disse à multidão e aos seus discípulos: ‘Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam. Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens. Eles fazem seus filactérios bem largos e as franjas de suas vestes bem longas; gostam do lugar de honra nos banquetes e dos assentos mais importantes nas sinagogas, de serem saudados nas praças e de serem chamados ‘rabis’. Mas vocês não devem ser chamados ‘rabis’; um só é o mestre de vocês, e todos vocês são irmãos. A ninguém na terra chamem ‘pai’, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus. Tampouco vocês devem ser chamados ‘chefes’, porquanto vocês têm um só chefe, o Cristo. O maior entre vocês deverá ser servo. Pois, todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado.” (23: 1-14). Na sequência Jesus ainda dirige uma série de sete “ais” aos escribas e fariseus, sendo que cada um deles começa com: "Ai de vós!".
Essa questão permanece atual, uma vez que a humanidade ainda convive com um conflito consigo mesma, dividida entre a busca pela felicidade espiritual e a satisfação terrena momentânea. Enquanto a primeira exige trabalho e persistência, e chegará no prazo da perfectibilidade humana; a segunda, fácil e instantânea, oculta as armadilhas que limitam e retardam a própria evolução. Incompatíveis entre si, a perfeição e o imediatismo são a dicotomia da luta interior constante que trava o incapaz de olhar para além da mortalidade de seu corpo.
Refletir sobre isso implicará, inevitavelmente, na transformação das palavras, dos aprendizados à ação, pois nos afastaremos das atitudes centradas no ego e estimularemos bons sentimentos e a prática de boas ações. Aliás, nesse sentido é a lição de Emmanuel, por intermédio de Chico Xavier, ao dizer que” embora a vontade humana seja o motor da transformação, o sentimento é o combustível necessário para inspirar o cérebro e plasmar as ações.”.
É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que a tua fala seja a sua prática, inclusive porque quando nossos atos refletirem nossas palavras teremos compreendido, como dizia Cora Coralina, que feliz é o homem que ensina o que sabe, e, ouso complementar, coloca em prática aquilo que ensina.
Enfim, sejamos coerentes, pois alguém já disse que coerência é o padrão de pensamento que move nossa forma de agir.
Paulo Eduardo de Barros Fonseca