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Sábado, 12 de Setembro 2026
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Educação de qualidade

O quarto Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS) é garantir educação inclusiva e de boa qualidade

Educação de qualidade
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O quarto Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS) é garantir educação inclusiva e de boa qualidade, além de dar oportunidade de aprendizado para todos, em todas as idades. Vamos tratar nesta coluna da meta de atingir educação de boa qualidade que, no meu entender, já é uma tarefa bastante difícil. Antes de qualquer outra consideração precisamos definir o que é educação de qualidade, para em um segundo momento estabelecer como podemos alcançar esse objetivo.

Particularmente, e sei que muitos pensadores da área da educação irão discordar do meu pensamento, acredito que o primeiro requisito para que a educação seja de boa qualidade esteja no pressuposto de que essa educação transmita o saber, informe. Ao longo de minha vida acadêmica e também de minha vida pessoal, vi muitos colegas professores preocupados em “formar pessoas” e, talvez, esquecendo do “informar pessoas”. A preocupação com trabalhar valores na escola assumiu proporções bastante grandes. Pergunto, seria efetivo trabalhar valores se eles não forem os mesmos valores da família? E, se eles forem os mesmos valores da família, seria necessário que a escola com eles estivesse preocupada? Como mãe, procurei criar os melhores seres humanos que pude no que tange aos valores humanos como a bondade, a honestidade e a compaixão, mas confesso minha absoluta incapacidade de ensinar trigonometria para meus filhos. Assim, acredito que o papel que a escola não pode abandonar é o de “informar pessoas”.

O avanço da civilização humana foi possível graças aos contínuos processos de alteração do meio ambiente procurando adequá-lo às necessidades do Homo sapiens, espécie dotada de poucos recursos para sobreviver nas condições hostis ofertadas pelo planeta Terra. A característica que permitiu nossa sobrevivência é a nossa inteligência que serviu para observar o meio, compreendê-lo e modificá-lo, construindo habitações para proteger das condições climáticas e de predadores, alterando os ecossistemas para que as espécies animais e vegetais escolhidas pudessem sobreviver, fundindo metais e construindo utensílios. Ao longo dos últimos milhares de anos a humanidade desenvolveu saber, criamos a escrita e a matemática, a ciência e a arte. Esse conhecimento, que garantiu nossa sobrevivência, permitiu também que enxergássemos as alterações empreendidas no ambiente como danosas e que desenvolvêssemos formas de controlar nossos impactos ambientais nos mais recentes anos.

O conhecimento humano é, portanto, a pedra fundamental que garante nossa existência e não é sem motivo que despendemos muitos anos nos bancos escolares, diria até, que os melhores anos de nossa vida, na infância e na juventude, são destinados a receber a sabedoria desenvolvida por nossos ancestrais. Reinventar a roda a cada vez que for projetado um carro não será produtivo, não ter acesso a informação é negar um direito básico de cada ser humano para evoluir. Trago para uma situação mais concreta, na minha área de formação, biologia, as células tronco embrionárias eram tema de debates escolares há alguns anos, os debates sempre focavam nos aspectos éticos do uso dessas células (valores), mas poucos alunos tinham clareza sobre as questões biológicas envolvidas (ciência). A escola não deveria negligenciar seu papel de transmitir ciência e erudição.

Consideremos então que a educação de boa qualidade deva fornecer os conhecimentos necessários para a vida, saber ler e escrever, compreender textos, entender o funcionamento do corpo humano e as ameaças para nossa saúde, abstrair com a matemática, empregar a matemática para calcular impostos. Como tem sido o desempenho da escola nessa tarefa? Matéria publicada no Jornal da USP em 13 de novembro de 2020 informou que o número de analfabetos funcionais corresponde a 29% da população brasileira, esse dado é do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), divulgado em 2018. O teste foi aplicado em brasileiros com idade entre 15 e 64 anos e avaliou habilidades de leitura, escrita e matemática. Por analfabeto funcional entende-se a pessoa que encontra barreiras em sua vida como cidadão e no mercado de trabalho, estão divididos em dois grupos: os absolutos que não conseguem ler palavras ou frases e números telefônicos, e os rudimentares que têm dificuldade para identificar ironias e sarcasmos em textos curtos e realizar operações simples, como cálculo de dinheiro. Os 29% que podem ser classificados como analfabetos funcionais frequentaram a escola e não têm os conhecimentos mínimos necessários para sua sobrevivência.

Que medidas forma adotadas para melhorar esse cenário? Criamos cotas nos vestibulares para alunos egressos da escola pública sob o argumento, válido, de que as precárias condições socioeconômicas de muitos desses alunos impediam seu amplo desenvolvimento e que as cotas seriam o fator transformador para muitos, o que é correto. Mas a condição sócio-econômica dos alunos seria a única causa de seu desempenho ruim nos exames vestibulares? Os números mostram que não. As cotas são, portanto, remédio para a febre e não irão curar a infecção. O que podemos fazer para reverter esse quadro tão desalentador?

A construção de um país melhor necessariamente passará por uma revisão da educação e suas metas. Reforço minha visão de que a escola precisa ensinar fatos, precisa fornecer dados. O aluno irá formar suas próprias opiniões e, conhecedor desse caminho do pensar, pensador será. Acredito, também, que nossa educação precise de investimentos maciços, e não faço referência aos investimentos em infraestrutura, refiro-me aos salários recebidos pelos professores. Um professor motivado não precisa de sala de aula para ser muito bom, um professor valorizado pela sociedade será a única força capaz de mudar os rumos sombrios da escola no nosso país, tanto a pública quanto a privada. Precisamos atrair os melhores profissionais para a área da educação e não se consegue isso sem investimentos salariais.

Educação é a resposta para todos os problemas. Pessoas lúcidas, capazes de entender a vida, são também capazes de tomar decisões adequadas para si e para os outros, estão menos sujeitas à manipulação. A valorização dos profissionais da educação é o pilar sem o qual não conseguiremos avançar. Se as medidas adequadas forem adotadas, teremos os melhores alunos egressos do Ensino Médio buscando carreira nas licenciaturas e, talvez, no futuro tenhamos motivos para nos orgulhar da educação no Brasil.

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