O governo destinado a atender à vontade cidadã, que permite a maior participação dos governados na gestão dos interesses comuns é chamado Democracia. Platão já a considerara “uma constituição agradável, anárquica e variada, distribuidora de igualdade indiferentemente a iguais e a desiguais”. Aristóteles, que também prezava a fórmula de uma administração do povo, para o povo e pelo povo, afirmava que “a democracia surgiu quando, devido ao fato de que todos são iguais em certo sentido, acreditou-se que todos fossem absolutamente iguais entre si”.
A busca pela democracia é um ideal dos homens que cultivam qualidades éticas, não se consideram superiores em essência aos demais. Não é fácil mantê-la, pela própria condição humana centrada no individualismo tendente ao egoísmo, quando exacerbado. Como dizia Goethe, “a democracia não corre, mas chega segura ao objetivo”. De qualquer forma, nosso inigualável Rui Barbosa, “a águia de Haia”, deixou a célebre frase de que “a pior democracia é preferível à melhor das ditaduras”.
Democracia é o regime do diálogo. É necessário ouvir o outro, auscultar sua vontade, para que se possa tender ao possível consenso. Uma proposta de convivência alicerçada sobre a igualdade entre os seres racionais não se compadece com a prevalência de uma opinião sobre a outra, se esta não tiver oportunidade paralela de expor suas razões.
Afastar-se do diálogo é um atestado de fissura de caráter. Denuncia insegurança ou prepotência. Não condiz com o ideal da perfectibilidade humana, a crença em que, a cada dia, o homem pode e deve ser melhor do que no dia anterior.
Pior do que a ausência de diálogo é a traição. Infelizmente, não é fato incomum na vida pseudodemocrática. Trair é renegar o compromisso. É mostrar a face menos desejável de uma criatura que se considera a primícia da criação, a mais perfeita espécie viva sobre a Terra. Mas “a traição nunca triunfa. Qual o motivo? Porque, se triunfasse, ninguém mais ousaria chamá-la de traição”, ensinou Harrington.
A humanidade tem ojeriza pelos traidores. Judas Iscariotes foi quem traiu o Mestre. Plutarco, em “Vidas Paralelas”, asseverou que César amava as traições, mas odiava os traidores.
O traidor é um ser abjeto. Inimigo da virtude. Aquilo que não basta conhecer. É preciso possuí-la e, mais do que isso, praticá-la.
*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022.