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Domingo, 20 de Setembro 2026
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Cadáveres insepultos

Colunista *Percival

Cadáveres insepultos
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Há um cheiro estranho no ar. O odor, fétido, nauseabundo, é repugnante, insuportável, incomoda as narinas e nos impele a uma busca desesperada para respirar ar puro. Tudo acontece porque estão espalhados por várias partes, exalando péssimos mau cheiro, ex-humanos que tombaram por falência múltipla de órgãos morais e sucumbiram sem sequer dar tempo para serem entubados.

Isso nada tem de ficção. Pelo contrário: é o espelho da realidade na qual estamos submersos, ansiando para voltar à tona de um mundo digno. Este é um dos muitos ensinamentos do Mestre Jesus, ao nos mostrar - Mateus 23.27- que sepulcros caiados, a moradia dos mortos, podem ser belos por fora e dentro repletos de ossos e podridão. Não estou sendo original nessa abordagem. O escritor Érico Veríssimo, no seu livro “Incidente em Antares”, conta a história de uma cidade onde os coveiros fizeram greve e os corpos não podiam ser enterrados. Revoltados, os mortos levantaram-se de seus caixões e saíram em procissão pela cidade, reivindicando direito a cemitério e gritando denúncias de falcatruas e corrupção locais, conseguindo assim o direito de ganhar suas tumbas.

Antares transferiu-se para Brasília. Algumas togas ficaram caiadas, para perplexidade dos cidadãos confiantes num dos pilares da República. Pixar estátua com batom e tomar 14 anos de cadeia, como já aconteceu, virou ato pueril, se comparado com colarinhos brancos e outras cores, decorados com gravatas exuberantes. Tais indumentárias traziam a  sensação de que seus usuários pudessem ostentar num dos dedos reluzente anel que lhes dava o poder de se ficar invisíveis. Isto está numa obra de Platão, o filósofo grego, na “República” e o misterioso anel de Giges. Vejo aqui uma semelhança de estilo entre Veríssimo e Platão: o escritor gaúcho fala de uma rebelião dos mortos, metáfora do que estamos assistindo, assombrados, no Planalto central. Já um dos expoentes da potência filosófica, mãe da democracia, revela pessoas que acreditam poder fazer o que bem entendem, na certeza de que nunca serão vistos e descobertos. Fico imaginando o que se passa na cabeça de estelionatários e aprisionados ladrões de galináceos. Pior ainda: o que pensam magistrados de instâncias inferiores, tão estupefatos quanto nós, ao contemplar atos imorais, corporativos e ecumênicos, exemplos fracassados de repercussões para serem observadas para futuras decisões.

*Jornalista e escritor

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