Os grandes avanços científicos e tecnológicos do século 20 lançaram as melhores expectativas sobre o século 21. Filmes, livros e o imaginário popular apontavam na direção de uma vida pautada pela inovação na qual as doenças infecciosas e parasitárias seriam uma lembrança distante de um tempo em que a humanidade vivia em precárias condições. Por que, então, estamos assistindo ao nascer deste século envoltos em repelente e tomando vacinas da infância?
Nos meios acadêmicos, esta era uma tragédia anunciada. A produção científica dos últimos vinte anos tem evidenciado essa afirmação. Pessoalmente, organizei quatro Seminários de Saúde Pública e Meio Ambiente (de 2015 a 2018) e, na oportunidade, exteriorizam debates e opinões sobre o surgimento de doenças como Zika e Chikungunya, bem como o ressurgimento da dengue e potencialmente da febre amarela. Os problemas de saúde pública não terminam aí; continuam a grassar a sífilis congênita, um surto de sarampo em São Paulo, um caso importado de malária no Rio de Janeiro e a leptospirose, aguardando a próxima enchente para aparecer...
Qual a causa de todo este cenário assustador? As causas, como todos os colegas da saúde pública sabem, estão fora do setor saúde. Não adiantará desenvolver a vacina contra dengue, sem controlar verdadeiramente a população do Aedes aegypti. Na Amazônia foram identificados mais de quatrocentos novos vírus, dos quais cento e cinquenta são capazes de infectar humanos. Assim, acabar com a dengue por meio de vacinação é resolver o problema por algum tempo, até que um, ou mais, daquele grupo de cento e cinquenta, ocupe o hábitat deixado vago pelo vírus antecessor.
Como controlar a população do Aedes? Seguramente não será com a colocação de areia nos anteparos dos vasos de plantas e/ou com garrafas viradas de boca para baixo. Embora necessárias, tais ações são insuficientes. Por meio de avaliações de domicílio, no estudo de Coorte Zika, foi-nos possível observar que o principal fator de risco era a ausência de microdrenagem urbana, ou seja, ausência de bueiros e acúmulo de águas pluviais nas vias públicas.
Como explicar o surto de sarampo em São Paulo? Não podemos deixar de observar os fatores relacionados com a geopolítica internacional e a entrada dos venezuelanos no país, o que propiciou a volta do vírus. Porém, a queda na cobertura vacinal no Brasil nos últimos anos foi fundamental para a instalação do cenário que observamos. Estudos apontam que o horário de funcionamento das Unidades Básicas de Saúde, algumas vezes, tem sido um dos grandes empecilhos para que os pais que trabalham consigam vacinar seus filhos. Além disso, o sarampo havia sido erradicado, causando certa sensação de invulnerabilidade por parte das pessoas.
Assim, estamos às voltas com os repelentes e a aplicação de vacinas, características da infância, na idade adulta porque falta educação, saneamento e urbanismo no nosso país.
Sobre a nossa educação, penso que seja um momento de rever nossos conceitos. Aqui faço referência à forma mais tradicional de educação: ensino da estrutura do vírus, das proteínas do capsídeo viral, etc. Enfim, ensinar tudo o que for possível, porque o conhecimento que será necessário é imprevisível.
A falta de infraestrutura sanitária deve ser alvo de nossas mais profundas preocupações. Entre 1991 e 1996 tivemos uma epidemia de cólera no Brasil que levou muitas pessoas ao óbito. Cólera é uma doença de comportamento pandêmico, ou seja, uma epidemia que atinge o mundo todo. A pandemia dos anos 1990 foi a sétima, desde que começamos a contar, na metade do Século 19, e, ao final desta epidemia, o boletim epidemiológico do SUS indicava a necessidade de investimentos no saneamento básico. Daquela data até hoje nada foi feito para melhorar esta situação, ao contrário, a população aumentou consideravelmente, demandando mais recursos e esses investimentos não foram feitos na maior parte do país.
Por fim, nossos centros urbanos, apinhados de pessoas em busca de oportunidades de emprego e salário, não oferecem a mobilidade requerida e têm um plano habitacional precário. No começo deste Século 21, nós recriamos as condições que fizeram de nossas capitais cidades pestilentas no começo do Século 20. Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Adolfo Lutz e Emílio Ribas que nos perdoem!
*Bióloga, mestre e doutora em Saúde Pública, professora de Ensino Superior na Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo- FATEC-SP
Fernanda Cangerana