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Sábado, 31 de Outubro 2026
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As duas fugas de Fabiano

Esta semana me deu uma vontade danada de ler, reler, “treler” Vidas Secas, de Graciliano Ramos

As duas fugas de Fabiano
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 Esta semana me deu uma vontade danada de ler, reler, “treler” Vidas Secas, de Graciliano Ramos. É desses livros que ainda reagem ao hoje e ao amanhã, mesmo olhando para o ontem.

Nascido em Alagoas, em 1892, Graciliano deixou uma obra que marcou fortemente a literatura brasileira.

Sua escrita é direta. Poucas palavras. Poucos adjetivos. Palavras curtas.

Publicado em 1938, Vidas Secas escolhe o sertão como palco de seus personagens. Um sertão abrasador, onde homens, mulheres, crianças e animais disputam com a natureza o direito de sobreviver.

O romance desenvolve-se entre duas fugas.

Na primeira, Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos, a cadela Baleia e o papagaio caminham penosamente sob o sol causticante. Fogem de uma seca braba. Não sabem de onde vêm. Não sabem para onde vão.

Se adonam de uma fazenda abandonada, onde nem mandacaru crescia. A chuva vem. O dono reaparece. Fabiano se submete.

Por algum tempo, a família acredita ter chegado ao seu destino. Não chegou.

Entre uma fuga e outra, Graciliano constrói um universo que talvez nos ajude a compreender o sertão daquela época. E, quiçá, o Brasil árido de hoje.

Na obra, identificamos três círculos emocionais.

No primeiro estão Fabiano, Sinhá Vitória, o Menino Mais Novo e o Menino Mais Velho.

Fabiano conhece a terra, os bichos, a chuva, a seca. Sabe sobreviver, mas não domina as palavras. E essa incapacidade o diminui diante daqueles que melhor sabem usá-las.

Sinhá Vitória parece enxergar um pouco mais longe. Faz contas, desconfia, sonha. Seu grande projeto de felicidade é trocar uma cama de varas cheia de nós por uma cama com lastro de madeira.

Os meninos nem nome possuem.

No segundo círculo estão os animais, Baleia e o papagaio.

Em muitos momentos, Graciliano humaniza os animais enquanto animaliza os homens.

O papagaio quase não falava. E havia uma razão: pouco ouvia. Acaba sacrificado pela fome da família na primeira fuga.

Baleia, ao contrário, late, pensa, sente, sofre. Morre sonhando. No romance, talvez seja justamente a cachorra quem desperta no leitor os sentimentos mais humanos.

O terceiro círculo é formado pelos que estão do outro lado da vida de Fabiano. O Patrão, o Soldado Amarelo, seu Tomás da Bolandeira e Sinhá Terta.

Ali estão o poder econômico, a autoridade, o conhecimento dos livros, a capacidade de falar e de compreender as coisas simples. Cada um possui algum atributo que falta a Fabiano, impondo-lhe uma permanente desvantagem.

E lá se vão os anos. Mudaram os costumes, as crenças, os valores. Surgiu um mundo que Fabiano jamais poderia imaginar.

Aliás, quantos Fabianos ainda existem?

Homens e mulheres que conhecem seu ofício, trabalham de domingo a domingo, criam seus filhos, pagam suas contas, mas se sentem estranhos nesse mundo que não compreendem e que os alija.

E agora as arribações.

As aves cobrem o céu. Sinhá Vitória percebe o sinal. Elas anunciam a desgraça da falta d’água e, com ela, a seca.

Hora de fugir mais uma vez.

É a segunda fuga da família de Fabiano.

Mas há algo de extraordinário nessa nova jornada. A primeira foi movida pelo medo. A segunda carrega esperança.

Imaginam a cidade grande. Lá há de ser melhor. Os meninos irão à escola, aprenderão palavras difíceis, não serão vaqueiros como o pai. Fabiano e Sinhá Vitória envelhecerão e descansarão, desta feita não mais em uma cama de varas.

Quase noventa anos depois, as aves da arribação continuam arrodeando o país.

Mudaram de forma e de plumagem. São as crises econômicas, a intolerância social, a desigualdade cultural, a desfaçatez da política, a injustiça da justiça, a compra d’almas de homens por homens.

Amanhã, olhe para o céu de sua consciência. A sombra das urnas te protegerá do sol inclemente.

Não procure apenas as aves que anunciam a seca. Procure, mais ainda, as nuvens que anunciam a chuva.

E elas estão por lá.

Basta saber percebê-las.

Crédito:            General de Divisão da Reserva

Otávio Santana do Rêgo Barros

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