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Anarquia de valores

Colunista Otávio Santana do Rêgo Barros - General de Divisão R1

Anarquia de valores
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Uma manchete desconcertante em um site de notícias deu causa a este artigo: “Aluno do Mackenzie usa suástica para protestar contra vacinas e gera revolta na universidade.”
Por coincidência, estou lendo a obra de Ann Herberlein, ARENDT, ENTRE O AMOR E O MAL: UMA BIOGRAFIA (Companhia das Letras, 2020). Recordei-me de uma passagem contida no texto, que vem contrapor-se à ação desse jovem estudante.
Antes, porém, merece de nossa parte questionar a razão para termos entrado nesta caverna de contradições emocionais, ideológicas e políticas, vagueando na escuridão iluminada por chamas de toco de vela.
Diz a biógrafa, tomando por base os textos, cartas, palestras e provocações promovidos pela filósofa alemã, naturalizada americana:
“O antídoto para a maldade não é, como se poderia pensar instintivamente, a bondade, embora a maldade e a bondade sejam opostas. O antídoto é reflexão e responsabilidade. Quando as pessoas param de pensar, refletir e escolher entre o bem e o mal, entre participar e resistir, então o mal aumenta.”
A suástica, dantesco símbolo do nacional-socialismo, há muito vem sendo abominada nas democracias contemporâneas, em particular no velho continente, vítima mais afetada que foi do doloroso processo que incluiu a guerra com seus oitenta milhões de pessoas mortas e cerca de seis milhões de judeus assassinados em circunstâncias indefensáveis sob quaisquer pontos de vista.
Retomemos o prumo do discurso. A importância da defesa da reflexão como lente para amplificação das decisões práticas e sobretudo morais de cada indivíduo e da sociedade, como corpo enquadrante.
Podemos admitir apenas duas hipóteses para a postura daquele universitário: agiu sem pensar, obnubilado pela suposta e confortável distância entre telas de computadores ou agiu na plena consciência, ciente das consequências que sua provocação promoveria no grupo de debate e até no campus da universidade.
Melhor à nossa sanidade mental e social é crer que a primeira proposição seja a verdadeira. Diria o estudante, filando de um texto de Hegel: “ninguém me entendeu, a não ser uma pessoa, e esta me entendeu mal.”
Um deslize, uma brincadeira, desconhecimento histórico, qualquer desculpa que possa nos proteger e a ele, da segunda hipótese.
Essa, indesculpável. Sendo de caso pensado, revela um sujeito que ultrapassa a linha da vigília ética, ao misturar sua convicção de promotor do movimento antivacina, com tendência autocrata para além do totalitarismo de bar. 
Em sua anarquia de valores, talvez buscasse a notoriedade pueril de uma semana de capa de revista, jornal ou site de notícias. Ao menos por agora a conseguiu.
Está raro encontrar gente que acredite possuir a verdade, tão atacada em nossos tempos. Ao invés disso deparamo-nos constantemente com os que estão certos de estarem certos. A verdade não consta mais dos manuais de “moral e cívica”!
Tornou-se fácil a emissão e defesa de opiniões, quando circulam exclusivamente dentro de ambientes hermeticamente fechados, nos quais receptores e transmissores trocam aleatoriamente de posição, mas não trocam as ideias.
Quando as sandices furam a epiderme das bolhas, como me pareceu ser o caso da suástica de seringas em uma aula de direito, o choque de realidade gerado pela fricção do bem contra o mal enfraquece sobremaneira os valores acumulados na sociedade, tornando-a refém de divisões não lineares que desconhecem a sadia convivência entre distintos.
Matutemos.
Paz e bem!

Otávio Santana do Rêgo Barros
General de Divisão R1

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