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Terça-feira, 22 de Setembro 2026
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Acabar com a fome

O segundo Objetivo do Desenvolvimento Sustentável, estabelecido pela ONU

Acabar com a fome
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O segundo Objetivo do Desenvolvimento Sustentável, estabelecido pela ONU, é o término da fome no mundo. Assim como acontece com os demais objetivos, essa meta representa um pilar sem o qual nenhum desenvolvimento humano seria cabível. Não podemos avançar enquanto civilização e permitir que um grupo de pessoas permaneça padecendo pela falta de alimentos. Percebidos sob esta ótica, os ODSs são o patamar mínimo a partir do qual poderemos almejar existir na Terra no futuro.

Para melhor compreender a fome no mundo precisamos pensar em dois aspectos, o acesso a alimentos em quantidade suficiente para não padecer e o acesso aos alimentos com a qualidade necessária para fornecer o aporte de nutrientes que garantam boa saúde. No primeiro caso estamos tratando da segurança alimentar, no segundo da segurança nutricional.

Para estudar a segurança alimentar em números vamos usar o relatório “O Estado da Insegurança Alimentar e Nutricional no Mundo”, publicado em julho de 2020 pela ONU. Este estudo indica que 690 milhões de pessoas passaram fome no ano de 2019, este número fica 10 milhões acima do número de pessoas nesta mesma condição no ano de 2018 e é 60 milhões ao ano de 2014. O relatório aponta para os possíveis efeitos da COVID-19 neste quadro e estima que mais de 130 milhões de pessoas podem ser levados à condição de fome crônica por conta dos eventos impostos pela pandemia.

A meta de erradicar a fome no mundo foi assumida em 2015 e, passados seis anos, a insegurança alimentar e todas as formas de desnutrição ainda demonstram que estamos fora do caminho para alcançar esse objetivo. Avaliando os números entre 2000 e 2020, é possível observar que, no mundo todo, a fome foi sendo reduzida até 2014 e, deste ano até os dias atuais voltou a crescer.

Em números absolutos a Ásia abriga o maior número de subalimentado, 381 milhões, a África fica em segundo lugar com 250 milhões de pessoas, e a América Latina e Caribe como um todo vem em seguida com 48 milhões. Se fizermos uma comparação entre os lugares considerando o tamanho da população, a análise em porcentagem indica que a África é na verdade o lugar mais afetado porque de cada 100 habitantes 19,1 passa fome. Na Ásia 8,3% da população apresenta esta mesma condição e 7,4% dos moradores da América Latina e Caribe padecem por fome. Considerando a fome em nosso país, no ano de 2020 10,3 milhões de pessoas foram atingidas, 7,7 em áreas urbanas e 2,6 no campo, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Se considerada a condição de segurança nutricional, ou seja, não apenas ter acesso ao alimento mas ter acesso aos alimentos variados e de boa qualidade assegurando o aporte de nutrientes necessários para ter uma boa saúde e, no caso das crianças, um bom desenvolvimento, os custos elevados dos alimentos e a baixa renda dos consumidores indicam ainda que bilhões de pessoas não conseguem consumir alimentos nutritivos.

Se o acesso aos alimentos já é um desafio, o acesso aos alimentos de boa qualidade torna-se um desafio ainda maior, estima-se que uma dieta saudável tenha o custo de U$ 1,90 por dia, ou R$ 10,35, considerando o valor do dólar em 22/02/2021. Em um mês o custo seria, portanto, de R$ 310,00 por pessoa aproximadamente. Uma família de quatro pessoas gastaria em torno de R$ 1.242,60 para consumir os necessários laticínios ricos em nutrientes, frutas, legumes, verduras, e alimentos ricos em proteínas.

Inacessível para muitos, estima-se que três bilhões de pessoas não possam pagar por esta dieta saudável. Mais da metade da população na África ao sul do Deserto do Saara e da Ásia Meridional. Embora os cenários mais graves estejam nessas localidades, coerentemente mais afetadas pela fome em quantidade de alimentos, nenhum lugar do mundo conseguiu garantir a segurança nutricional para seus habitantes, nem mesmo os países mais ricos e desenvolvidos. Hábitos alimentares muitas vezes fortemente arraigados na população são determinantes para que esta condição permaneça, ao lado dos desnutridos pela falta de possibilidade econômica para consumir, figuram os obesos que consomem grande quantidade de calorias sem valor nutricional.

O relatório da ONU publicado no ano de 2019 aponta que 191 milhões de crianças abaixo de cinco anos estejam sofrendo de marasmo ou atraso no crescimento enquanto outros 38 milhões de crianças na mesma faixa etária estão obesas. Dado alarmante se considerarmos que a insegurança nutricional na infância irá determinar os hábitos alimentares na idade adulta estabelecendo um círculo vicioso de difícil interrupção. Hábito alimentar é estabelecido dentro das famílias e estará em acordo com o poder de compra e a afinidade pessoal dos pais pelos alimentos.

Atingir a meta de erradicar a fome e garantir segurança nutricional para todos é uma tarefa de grandes proporções que passará por implementar emprego e renda em um primeiro momento e, em seguida, necessariamente, pela difícil revisão das práticas alimentares nas famílias.

 

Fernanda Cangerana

 

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