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Terça-feira, 08 de Setembro 2026
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Abrolhos e um susto com uma mancha de óleo

Em 1832, a bordo do navio Beagle e empreendendo a viagem que lhe renderia uma das maiores observações científicas já relatadas

Abrolhos e um susto com uma mancha de óleo
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Em 1832, a bordo do navio Beagle e empreendendo a viagem que lhe renderia uma das maiores observações científicas já relatadas, o naturalista inglês Charles Darwin visitou o Arquipélago de Abrolhos. Darwin escreveu: “As ilhas dos Abrolhos, vistas de uma certa distância, são de um verde brilhante. A vegetação consiste de plantas suculentas e gramínea, entremeadas com alguns arbustos e cactos…quase todas as pedras têm o seu lagarto correspondente; aranhas em grande número; o mesmo com ratos. O fundo do mar em volta é densamente coberto por enormes corais; muitos tinham mais de 90 cm de diâmetro”.

A origem do seu nome vem dos registros em diversos mapas antigos nos quais um aviso aos navegadores pedia: "Abre Olhos", por conta dos frequentes acidentes e naufrágios causados pela formação de corais que dificultavam a navegação.

Abrolhos fica na região com a maior biodiversidade marinha do Brasil e do Atlântico Sul, foi o primeiro Parque Nacional Marinho criado no Brasil em abril de 1983, e representa um marco para a conservação ambiental no país. O Parque pode ser dividido em duas áreas: uma que protege o arco de recifes costeiros localizado entre os municípios de Alcobaça e Prado abrangendo o Recife de Timbebas; e outra a cerca de 70 quilômetros da costa, que engloba o Parcel dos Abrolhos, contendo um complexo de milhares de chapeiões, estruturas recifais únicas encontradas somente na região, e o Arquipélago dos Abrolhos - composto por cinco ilhas das quais quatro: Redonda, Siriba, Sueste, Guarita fazem parte do parque. Apenas Santa Bárbara, está excluída de seus limites e sob jurisdição da Marinha do Brasil.

Duas espécies animais são muito referidas quando tratamos desta região: as baleias jubarte migram para o banco de Abrolhos na época do nascimento dos filhotes, e o coral Mussismilia braziliensis, conhecido como coral cérebro por seu aspecto peculiar. Mas a biodiversidade de Abrolhos é muito grande, espécies de tartarugas marinhas ameaçadas de extinção - como as tartarugas de couro, cabeçuda, verde e de pente - também se refugiam no Parque, além de aves marinhas como a grazina do bico vermelho, os atobás branco e marrom, as fragatas, beneditos entre outros, incluindo pequenas aves migratórias do Hemisfério Norte. Um levantamento da biodiversidade da região registrou aproximadamente 1.300 espécies, 45 delas consideradas ameaçadas.

Considerando sua importância econômica, a pesca no entorno do parque representa 10% de toda a receita com esta atividade no Brasil, movimentando cem milhões de reais por ano. Esta arrecadação só é possível porque a área preservada do parque garante a procriação das espécies que permite a manutenção da atividade pesqueira na região e serve de fonte direta de renda para aproximadamente vinte mil pessoas na região. A atividade turística, possível graças ao bom estado de conservação ambiental da área, é também geradora de centenas de empregos em hotéis, pousadas, restaurantes, e todas as outras atividades relacionadas ao setor turismo, garantindo renda e o aquecimento da economia. O turismo representa 20% do PIB dos municípios da Costa das Baleias, zona turística correspondente ao litoral do extremo sul da Bahia. A motivação principal para 90% dos turistas que visitam a região é o conjunto dos atrativos naturais. As águas transparentes, de um verde-azulado, deixam à mostra recifes e corais, e permitem ver, ainda do barco, cardumes, tartarugas marinhas e outras espécies. O cenário já paradisíaco fica ainda mais belo sob as águas, em mergulhos nos quais uma vasta diversidade marinha se apresenta aos olhos.

No último dia 2 de novembro a marinha divulgou que alguns pequenos fragmentos do óleo que vem sendo encontrado no Nordeste haviam chegado ao arquipélago de Abrolhos, na Bahia. Os resíduos foram detectados e recolhidos próximos à Ilha de Santa Bárbara. Outros fragmentos de óleo foram retirados da Ponta da Baleia, no município baiano de Caravelas. No dia 3 de novembro a visitação ao local foi suspensa e a Marinha informou que oito embarcações monitoravam a região: Fragatas Independência e Constituição, Navio de Desembarque de Carros de Combate Almirante Saboia, Navio Varredor Atalaia, Navio Oceanográfico Antares, Corveta Caboclo e Navios OSRV Viking Surf e Mar Limpo IV da Petrobras.

A previsão de reabertura do parque era o dia 14 de novembro, entretanto, no dia 7 de novembro a reabertura foi antecipada porque os fragmentos de óleo encontrados em todas as ilhas reduziram-se a poucas gramas e que não foi encontrada nenhuma quantidade significativa no mar.

Foi um susto, mas, felizmente, não houve maiores consequências. O alerta permanece. Temos um enorme e rico patrimônio ambiental, a correta gestão e o uso planejado deste patrimônio podem trazer riquezas para nosso país. Neste contexto, é necessário tomarmos todas as medidas preventivas possíveis, não apenas para a região de Abrolhos, mas para todo o patrimônio ambiental brasileiro.

  • Bióloga, mestre e doutora em Saúde Pública

Fernanda Cangerana

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