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Sexta-feira, 11 de Setembro 2026
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A Pátria clamando por amor

O dia 7 de setembro era celebrado com fervor cívico e entusiasmo há algumas décadas

A Pátria clamando por amor
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O dia 7 de setembro era celebrado com fervor cívico e entusiasmo há algumas décadas. Os colegiais treinavam para os desfiles, disputavam as cobiçadas vagas nas fanfarras e a glória de conduzir o pavilhão nacional.

Eram meses de preparo e expectativa. O segundo semestre letivo já iniciava sob a perspectiva dos jogos patrióticos, das redações, dos concursos de poesia e crônica, tudo culminando na majestosa manifestação do garbo estudantil. A manhã radiosa do feriado, os uniformes impecáveis, tudo tinindo de orgulho. Os preparativos eram uma festa à espera de uma epifania.

Este ano da peste impediu os desfiles. Mas parece arrefecer a euforia e debilitar-se aquele que era um sentimento épico: o acendrado afeto pela Pátria, pela qual se poderia até morrer.

Essa “religião patriótica” sofreu reveses em todo o planeta. Luc Ferry, um dos mais festejados filósofos franceses, conta que em seu tempo de criança – ele nasceu em 1951 – era comum que os alunos aceitassem oferecer sua vida em holocausto pela França. Hoje não existiria tal disposição. O que aconteceu?

O pós-moderno é o mergulho irreversível da sociedade nas tecnologias da Quarta Revolução Industrial. Existem apelos emocionais de nacionalismo exacerbado, mas o sentimento parece ostentar sinal trocado. Em lugar de assumir sacrifício pela Pátria, prefere-se odiar aquele que significa ameaça. Quase sempre falsa a acusação xenófoba, as teorias da conspiração, os perigos imaginários ou construídos pelos algoritmos.

A Covid19 escancarou a situação brasileira, evidenciando as fissuras da iniquidade. Milhões de miseráveis, milhões de invisíveis, o espetáculo dantesco da falta de saneamento básico, o desmatamento que extingue o maior tesouro disponível, a biodiversidade que poderia ser a salvação do mundo.

A consciência da fragilidade existencial e da finitude que já levou tantos milhares de seres humanos e que tenta acostumar os viventes ao “novo normal” de mil mortes por dia, poderia – por milagre – converter-se em metamorfose. Eliminar o ódio, a ira, a intolerância, a raiva, a rispidez, o egoísmo à enésima potência e restaurar a afeição pelo próximo, pela natureza e pela transcendência.

A nostalgia de tempos idos exibe testemunhos de uma alma ingênua que reverenciava a terra natal: “Brasil, tua terra, tua linda terra, abençoada e farta, acolhedora e feliz, surgida do mistério, sob o pálio estrelado, como prêmio ao denodo e ao brio de uma raça. Não te esqueças que a cruz é o seu símbolo. Cruz luminosa, esmaltando o céu pontilhado na noite profunda e negra. Cruz prometedora, fincada na terra virgem para sombrear a imensidade dos campos e o arrojo dos píncaros. Olha o teu céu e o teu espírito; em ambos encontrarás os mesmos braços abertos e redentores que no espaço proclamam a divindade vigilante e no coração recatam a alegria santificada”.

O texto é de Fernando Magalhães, em sua “Cartilha da Probidade”. Escrita numa era em que se falar em “Educação Moral e Cívica” era apenas prosseguir na senda carinhosamente aberta pela família, no insubstituível papel de treinadora social da prole.

Como faz falta reacender no coração da criança, suscetível de acolher em sua alma pura, ainda sem contaminação, o amor por esta Pátria tão carente de carinho e tão necessitada dele. Essa a missão dos pais, ou de quem quer esteja no lugar deles, quando faltarem. Mero prolongamento do afeto que subsiste nas relações de sangue.

Luc Ferry tem a esperança de que o amor entre pais e filhos seja sinal de que o sentimento capaz de mover o sol e as demais estrelas possa vicejar nos corações ora desacostumados de compartilhar ternura, para ampliar o seu raio mágico de alcance.

Talvez se extraia da desgraça que nos trouxe dor e pânico, a semente de renovação dos bons propósitos, a vontade de amar, ao próximo, à natureza e à Pátria. Até se concretize a utopia de um “Brasil, cheio de bondade e de justiça. Brasil misericordioso”. Onde se vivencie o Evangelho do amor.

*Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.

José Renato Nalini

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