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A ciência conveniente

Colunista Fernanda Cangerana

A ciência conveniente
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Não tenho recordação de ouvir tantas referências ao crédito naquilo que a ciência nos ensina do que nos últimos tempos. Como bióloga, que por curto período exerceu a função de pesquisador científico nos Instituto Adolfo Lutz; como profissional que cursou todas as etapas acadêmicas da pós-graduação, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado, meu interesse pela ciência como um todo é muito natural. Ouso afirmar que em minha vida adulta dediquei grande parte do tempo ao desenvolvimento da ciência, ainda que de forma modesta. Neste contexto, chama muito a minha atenção a guinada que o senso comum vem sofrendo no que tange a acreditar e seguir aquilo que os cientistas pesquisam em seus laboratórios.

Esclareço! Muito contrafeita assisti nos últimos anos a um processo de descredito das verdades científicas. Vejam bem, não é um processo recente. Recordo alguns fatos que podem exemplificar minha afirmação. No distante ano 2000 ouvi de uma pessoa que “câncer era uma doença da mágoa”! Na época eu era uma doutoranda que pesquisava os efeitos químicos dos poluentes atmosféricos nas células de pulmão e laringe, a formação de adutos de DNA, e a iniciação do processo de carcinogênese. Afirmar que câncer é uma doença causada pelas mágoas reprimidas de um ser humano não podia estar mais distante daquilo que a ciência afirmava naquele momento. Pior do que isso! Coloca a doença como consequência revezes da vida, muitas vezes inevitáveis. Ninguém fica magoado porque quer, mas o entendimento do papel dos fatores ambientais no desenvolvimento da doença pode levar os governantes a priorizar políticas públicas de controle da exposição.

Algum tempo depois, escutei de outra pessoa que o colesterol alto seria consequência de fatores espirituais e que estava pouco relacionado a ingesta de gorduras animais. Nos idos de 2015, conheci uma pessoa cuja mãe teve morte súbita em casa, fato triste e que provocou em mim a maior das compaixões pelo ser que perdeu a figura materna de maneira abrupta. Porém, poucos meses depois do ocorrido, a referida senhora, agora órfã da mãe, comentou que teve uma violenta dor nas costas e procurou um pronto-socorro onde foi atendida e uma investigação para explicar a dor nas costas teve início. Contudo, a enorme quantidade de exames requerida para a investigação estava tomando muito tempo e a paciente evadiu-se do pronto atendimento. Na semana seguinte contava ela, orgulhosa, que deixou o hospital e chegando em casa fez uso dos remédios com os quais a falecida mãe costumava automedicar-se, a dor havia passado e ela tinha resolvido o problema que os doutores não souberam resolver. Não tive coragem de comentar com ela que uma mesma ação, em geral, leva à um mesmo desfecho.  Em inúmeras ocasiões nos últimos anos ouvi a afirmação de que os médicos, aqueles que dedicaram seis longos anos ao estudo do processo saúde/doença e depois aprofundaram esse saber em mais alguns anos de residência, não conhecem bem o corpo humano, matam as pessoas e erram mais do que acertam!!

Listar os momentos em que, boquiaberta, escutei afirmações negando o saber científico nesses últimos vinte anos tomaria todas as páginas do nosso querido semanário. Aconteceu, então, a surpreendente reviravolta. Aqueles mesmos que duvidavam tanto, aqueles que questionavam o saber científico e seguiam misticismos para recuperar a saúde, passaram a defender a vacinação! Percebam, sempre fui uma defensora das vacinas. Por longo período citei orgulhosa que no Brasil vacinávamos acima de 90% das crianças e foi com grande tristeza que assisti à diminuição desta cifra. Minha inquietação tem relação com o fato de que os atuais defensores da ciência sempre foram contrários a ela. Fico com a dúvida: a que devemos atribuir tão significativa mudança de comportamento de uma parcela grande da população?

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