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A barata

Colunista Otávio Santana

A barata
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Agora o escritor enlouqueceu. Imaginou novo mandato do presidente. Mas se concentra nas mazelas — crises ou crimes, sei lá, — criadas pelo mandatário e seu grupo para manter-se no poder
Caro Kafka,
Acabei de voltar de LISARB. Encontrei um amigo de infância que trabalha na AKVA STREAMING.
Ele me apresentou um projeto para o filme que dá continuidade à série que te comentei na última carta —artigo O insuspeito, 23.03.21.
Uma reviravolta no enredo. Na temporada anterior, tudo indicava que as eleições seriam ganhas por um grupo diferente dos extremos políticos do país.
Pois bem, agora o escritor enlouqueceu. Imaginou novo mandato do presidente. Mas se concentra nas mazelas — crises ou crimes, sei lá, — criadas pelo mandatário e seu grupo para manter-se no poder. E no desespero da sociedade lisarbense. Estou pensando bancar a produção. Opine sobre o projeto. Gosto de ficção política.Eis uma degustação do roteiro:
Narrador (com música de fundo indefinida) — Céu inquieto como surdo em carnaval, nublado, consequência da tempestade que rasgou a capital.
Corta para a praça molhada em frente ao parlatório suja de bandeiras distribuídas antes do discurso de posse para aparentar um maior número de pessoas.
Narrador — A cerimônia informal não foi lá essas coisas. Os apoiadores, mesmo os mais aguerridos, preferiram ficar em casa.
O ano novo, no dia anterior, foi uma catarse social por tudo que a população passou em consequência da continuidade da pandemia e do sofrido ambiente político, econômico e moral.
Comemorou-se o estar vivo!
A euforia da eleição passada ficou pelo caminho. A inflação anual descontrolou-se. Beira os sessenta por cento.
Somente os mais velhos viveram situação semelhante. O dinheiro desvalorizado obrigava a dona de casa a peregrinar pelos supermercados por promoções ou produtos não remarcados com agilidade. Época do “overnight”.
Corta para um supermercado com o funcionário remarcando sacos de feijão.
Narrador — A máquina rotuladora voltou a ser ferramenta de trabalho dos estoquistas. O desemprego, em patamares insuportáveis.
Corta para um aterro sanitário com as pessoas fuçando a montanha de lixo derramada pelo caminhão de limpeza pública.
Narrador — O drama de indigentes em busca de restos de comidas é rotina nos telejornais diários.
Os últimos investidores, os que resistiam em acreditar no país, ainda que por interesse (a taxa de juros é a maior do mundo), transferiram suas reservas para um emergente mais emergente.
Corta para a bolsa de valores de Oluapoãs em dia frenético de más notícias.
Narrador — A campanha eleitoral foi de uma baixeza ética e moral inominável. Um vale tudo sem regras. De todas as partes.
O candidato no poder viu, meses antes, sua chance de reeleição cair a um nível quase irrecuperável. Lançou mão do desprezível conceito “às favas com o escrúpulo”.
Corta para um quarto de hotel onde um lobista coloca maços de dinheiro em uma sacola de um supermercado da periferia.
Narrador — Rompeu todos os parâmetros de boa governança. Imprimiu dinheiro a rodo para comprar políticos desonestos e aproveitadores e ludibriar os mais necessitados com um engodo social.
Lisarb está na divisão inferior dos países que demonstram anomia. Insegurança política, econômica e psicossocial para enfrentar a crise mundial que a todos atingiu.
Corta para a sala principal de uma luxuosa residência.
Ator 1 — E agora? Ganhamos. O que fazer para governar? Temos que mostrar serviço.
Ator 2 — Vamos começar imediatamente a próxima campanha.
Ator 3 – Assumimos há dois dias. Está muito cedo. Vamos precisar disfarçar um pouquinho. Fingir alguma proposta de governo. Cadê aquele rascunho de PowerPoint que fiz há quatro anos? Ainda serve.
Ator 2 — Alguma outra ideia?
A câmera percorre o rosto de todos na sala principal da mansão. Silêncio total.
Ator 1 — Não pensamos em nada. Nos elegemos mais uma vez com um papo de ser contra o outro, contra a corrupção, contra o que nem sabemos.
Ator 2— Mas isso tudo é balela. Mentir é arte.
Ator 4 — Não nos preocupemos. A mesma técnica. Vamos lançar algumas ideias estapafúrdias. A imprensa vai discuti-las, tentar entendê-las e, enquanto isto, aproveitamos para planejar o carnaval.
Ator 1 — Tudo bem, até porque o congresso está em recesso e não nos cobrarão as emendas prometidas.
Ator 2 – Isso é problema. Como vamos pagar.
Vou enviar o texto completo.
Para nossa geração o roteiro é impensável, é sórdido, mas acontecia amiúde naquele tempo. Lisarb mudou. É essa potência regional. Estou pensando em voltar.
Responda logo. Um abraço.
Fran
Neste Brasil do século 21, a realidade pouco difere da ficção. Ao acordar, tenha certeza de que você não é uma barata como o caixeiro-viajante Gregor, da obra A Metamorfose de Franz Kafka.
Paz e bem!

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