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Terça-feira, 22 de Setembro 2026
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A água do mundo não vai acabar!

De tempos em tempos ouço a afirmação de que a água do mundo está acabando.

A água do mundo não vai acabar!
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De tempos em tempos ouço a afirmação de que a água do mundo está acabando. Bem mais recentemente, ouvi que os interesses internacionais em nosso país decorrem do fato de que abrigamos em nosso território uma reserva de abundantes recursos hídricos. Esta segunda afirmação pode encontrar algum respaldo na verdade, visto que, de fato nossas reservas são grandes e sua qualidade é muito boa, porém, a primeira afirmação é equivocada, a água do mundo não irá acabar nunca. Enquanto houver hidrogênio e oxigênio no planeta, e não existe nenhuma previsão ou possibilidade de que esses gases deixem de existir, haverá H2O. E, antes de encerrar o parágrafo preciso destacar que conhecer a fórmula da água é, sim, importante porque permite a liberdade do pensamento.

Então, se é claro para todos que a água não irá acabar, qual a polêmica gerada em torno deste recurso? Por que falamos tanto em água? Por que todos os anos as escolas comemoram o dia da água fazendo máscaras em forma de gotinhas de papel cartolina? Aqui, preciso abrir um parêntese neste texto, porque a produção de papel consome água e comemorar o dia da água usando papel é uma evidência de que não há compreensão real da dimensão deste problema. Fechado o parêntese, as questões sobre a água que se colocam tratam da deterioração da qualidade deste recurso com consequente aumento do custo para seu tratamento; do fato de que a distribuição da água no planeta é desigual, nem todos os povos têm o mesmo acesso a ela; e, além disso, grande parte da água está em mares e oceanos ou nas geleiras o que torna seu aproveitamento muito dispendioso do ponto de vista financeiro.

Na atualidade, ocupamos uma janela no tempo no que tange a qualidade da água. Nem sempre foi assim. A humanidade, em termos históricos, nunca teve acesso a uma água tão boa quanto a nossa. A ótima série “Roma” foi criada por John Millius, William Mac Donald e Bruno Heller e transmitida pelo canal de televisão a cabo HBO, foi inspirada em registros históricos e, seus personagens são semificcionais. Um dado episódio ilustra bem minha afirmação acima, César visita a casa do soldado romano Lucius Vorenus e a esposa do soldado, Niobe, oferece água ao imperador. César elogia a qualidade da água que Niobe havia preparado e ela demonstra um certo orgulho contido pela timidez. Isto porque a água de consumo das famílias era preparada na própria casa, decantada em potes, daí o nome potável, e filtrada em tecidos, demonstrando, portanto, habilidade da dona da casa em produzi-la.

Na metade do século 19, o médico inglês John Snow demonstrou, em meio a uma epidemia que matou 500 pessoas nos seus primeiros dez dias, que a água contaminada por matéria fecal causava a cólera. Londres era uma cidade sem nenhum saneamento básico, na qual lixo e esgoto iam se acumulando. Até que Snow provasse que a transmissão hídrica era causa de adoecimento, a água contaminada era percebida pela população apenas como um desconforto.

No Brasil somos ainda mais privilegiados do que nossos contemporâneos. A boa água mineral de que dispomos com tanta facilidade não é oferecida nos demais lugares do mundo. Em 2016 a revista Science Advances publicou um artigo no qual pesquisadores holandeses mostraram que o risco de escassez hídrica no mundo é muito maior do que imaginávamos e seus dados indicaram que quinhentos milhões de pessoas ao redor do planeta vivem, o ano todo, sem água. O país com menor disponibilidade de água no mundo é o Kuwait, seguido de outros países do Oriente Médio, mas o problema também aparece em diferentes localidades da África.

Em suma, teremos sempre água na Terra. Já na atualidade, mal distribuída, possivelmente no futuro, ainda mais contaminada e poluída. Ela não irá acabar, mas o gasto econômico para consumi-la será cada vez maior. Tratamentos progressivamente mais caros resultarão em água potável, porém com gosto, cheiro e cor, o que já acontece em algumas regiões de São Paulo. Economizar a ótima água tratada e fornecida pela Sabesp é um ato de sabedoria. Quando estiver desfrutando de sua próxima garrafinha de água mineral, honre esta dádiva!

* Bióloga, mestre e doutora em Saúde Pública

Fernanda Cangerana

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