O ser humano é a única dentre as criaturas que tem consciência da própria finitude. Já se definiu filosofia como a arte de “aprender a morrer”. Porque essa angústia indefinida que a todos acomete é o receio de partir, sem saber para onde.
A pretensão humana tenta disfarçar esse desconforto. Vive-se como se a vocação natural de cada vivente fosse a eternidade. Mas a cada dia, a legião daqueles que partem continua sua marcha. Quando a morte se aproxima, levando alguém querido, há como se um tremor nos fizesse recordar do inevitável. Um dia, não se sabe quando, será a nossa vez.
Tudo isso vem a propósito da celebração da Páscoa da Ressurreição, a mais importante dentre as datas cristãs. Aquele jovem judeu que pregou e fez milagres dos trinta aos trinta e três anos, foi crucificado, morreu e foi sepultado. Só que, ao terceiro dia, Ele ressurgiu dos mortos.
Maria Madalena, que estava inconsolável e extenuada, não O reconheceu. Só percebeu que era o Cristo no momento em que Ele a chamou pelo nome. Depois disso, foram outras dez aparições, em diversas circunstâncias, para provar que era mesmo o Cristo redivivo.
Ela correu para comunicar aos apóstolos que Jesus ressuscitara. E como reagiram eles? Com ceticismo, dúvida, descrença. “Mas essas notícias pareciam-lhes como um delírio, e não lhes deram crédito” (Lucas, 24,11). Talvez porque a notícia era transmitida por uma mulher! Para Fulton Sheen, “o ceticismo deles foi ainda mais difícil de superar que o ceticismo moderno, porque o deles partiu de uma esperança que aparentemente fora frustrada no Calvário; isso era muito mais difícil de curar que o ceticismo moderno, que é sem esperança”. Para os apóstolos, a perda parecia irreparável. Foi preciso que Jesus aparecesse aos discípulos a caminho de Emaús e só no momento em que tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e serviu aos companheiros de jornada, eles o reconheceram.
Voltaram correndo a Jerusalém, onde os demais estavam trancados. Amedrontados, temerosos de que o Sinédrio também os prendesse. Jesus aparece no meio deles e diz “A paz esteja convosco!”. Os incrédulos tocaram o corpo de Jesus e os Evangelhos narram que Tomé exigiu esse sinal. Convenceu-se, então, e exclamou: “Meu Senhor e meu Deus!”.
A incredulidade continua até hoje, para boa parte da humanidade. Mas Paulo, que não chegou a conviver com Cristo, mas se tornou fervoroso cristão, lembra que se a Ressurreição não fosse verdadeira, “vã seria a nossa fé”.
A crença na ressurreição dentre os mortos alivia o sofrimento pela certeza da morte. Durante quarenta dias, após Sua Ressurreição, Jesus preparou seus sucessores para suportar a perda de Sua presença, dali por diante.
Na esperança desse reencontro é que se baseia a crença. E Ressurreição é também inspiração para que nos proponhamos ressurgir em outras dimensões. Ressurgir a esperança em dias melhores. Ressurgir a vontade de harmonizar e de esquecer ressentimentos. Ressurgir a crença na Humanidade e no futuro de paz entre as pessoas. Ressurgir a convicção de que a cada um foi entregue um talento e que este precisa ser posto à prova para dar sentido à nossa passagem pelo planeta.
Qual a fênix que ressurge, cada alma justa deve passar pelo fogo da peregrinação, para fazer jus ao encontro definitivo com o Criador.
Mesmo para o agnóstico, aquele que não tem a graça da crença, a Festa da Páscoa tem significado muito mais relevante do que a alegoria do coelho e os ovos de chocolate. É uma oportunidade anual que se oferece ao ser pensante, para que ele sepulte o que não pode sobreviver e faça renascer aquilo que o dignifica e enobrece.
Feliz e Santa Páscoa da Ressurreição para todos!
*José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, Docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – gestão 2019-2020