Em julho de 1895 nascia, no coração da Zona Norte de São Paulo, um lar de esperança, amor, caridade e fé, a Paróquia de Sant’ana, conhecida carinhosamente como Casa da Vó Santana. Na tarde do último sábado (12), fiéis se reuniram para comemorar o aniversário de 130 anos da Paróquia. A missa de celebração foi presidida pelo cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer. Para além da Paróquia, a data também marca o aniversário de cinco anos da Basílica de Sant’ana.
O pároco José Roberto Abreu de Matos, conhecido como Padre Beto, conduziu a abertura da celebração lembrando que, em todas essas décadas, a Paróquia sempre esteve de portas abertas para acolher quem chega, seja em busca de orientação, consolo, fé ou um prato de comida. Inspirado pelas palavras do papa Francisco, reforçou o papel da igreja em “sair ao encontro”, ultrapassando seus próprios muros para caminhar junto da comunidade.
A fé que molda gerações
Entre os bancos, vitrais e corredores da Basílica Menor de Sant’Ana, memórias e histórias centenárias se misturam às vozes atuais. Odette Gomes Giannella, de 90 anos, é uma das testemunhas vivas da história da Paróquia. “Eu nasci aqui. Cresci aqui. Vi uma Santana descalça” conta, referindo-se à construção e evolução do bairro junto à igreja. Odette se mudou para a Rua Ezequiel Freire ainda na adolescência, quando o chão era de terra batida. “Era tudo mato. Tudo simples. Mas sempre muito cheio de fé. 130 anos para mim foi muito cheio de graças”.
Ela relembra com carinho os tempos em que a comunidade paroquial vivia em comunhão até mesmo com outras paróquias vizinhas. “A gente participava das festas de Santa Terezinha, de Nossa Senhora Aparecida, de Salette. Tudo era muito unido, como uma grande família. Tinha carreata, leilão, bingo, e todo mundo se ajudava”.
A neta de Odette, Larissa Giannella, hoje cerimoniária na Basílica, cresceu dentro da igreja. “Fui batizada aqui, crismada, fiz catequese. Hoje sirvo no altar. O que aprendi com a minha avó e com meus pais continua vivo em mim. A Basílica é o lugar onde minha fé se alimenta e onde encontro minha comunidade”.
Larissa contou para o jornal Semanário da Zona Norte que a vivência na Paróquia vai além da liturgia, “é aqui que aprendemos a servir, a amar, a escutar o outro. A igreja nos forma não só como cristãos, mas como seres humanos”.
Espiritualidade que transforma realidades
A história da Paróquia de Sant’Ana se confunde com a história do bairro. Para o Padre Beto, é impossível pensar a Zona Norte sem reconhecer o papel da Basílica. “Quantas famílias começaram sua história aqui, quantos casamentos, batizados, despedidas. Cada pessoa que passa por aqui carrega consigo um pedaço desta igreja, e a igreja leva um pedaço de cada um. É um patrimônio espiritual e humano”.
Esse mesmo sentimento é compartilhado por Guilherme Brito, empresário da região, “todo bairro tem sua igreja e seu comércio. Aqui, a Basílica é o coração pulsante. É importante não só religiosamente, mas socialmente. Tem o café, o trabalho com os mais pobres. Ela está no centro de Santana, acolhendo todas as demandas”.
A atuação da Basílica vai muito além das missas, e como dito pelo padre Beto, ela vai além dos muros. José Carlos dos Santos, membro ativo da comunidade, destaca a força das pastorais sociais. “Hoje temos mais de 60 crismandos, mesmo depois da pandemia. Mas também temos o café da manhã para pessoas em situação de rua, que acontece todos os dias, inclusive no Natal e no Ano Novo. A oficina Santa Rita entrega enxovais para gestantes em vulnerabilidade. Os Vicentinos atuam desde 1914 com distribuição de alimentos e visitas a famílias necessitadas”.
Ele explica que, ao preencher um relatório da Arquidiocese, a própria equipe pastoral se surpreendeu com o tamanho do trabalho desenvolvido, “a gente não percebe no dia a dia, mas é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Tem gente que chega para tomar um café e acaba encontrando acolhimento emocional, espiritual. Às vezes uma conversa salva uma vida”.
Aurora Maria Zaneratto Rosa, que atua nas pastorais dos noivos e da escuta, reforça esse caráter acolhedor da igreja. “É o nosso segundo lar. O lugar onde meu marido, meus filhos e netos cresceram. Participei da procissão grávida há 50 anos. E até hoje estou aqui, acolhendo quem precisa conversar, desabafar, pedir uma oração. Às vezes a pessoa chega em silêncio e vai embora aliviada. Isso é igreja. Isso é fé viva”.
A visita monitorada aos finais de semana também ajuda a manter a memória da Basílica acesa. Guias voluntários conduzem fiéis e visitantes pelos corredores, contando histórias, explicando os símbolos e revelando a riqueza cultural da igreja. Cada vitral, cada imagem, cada altar tem um significado.
E apesar dos 130 anos, a Paróquia de Sant’Ana não para. Com três missas diárias, adoração ao Santíssimo às quintas-feiras, atendimento de confissões, preparação de noivos, catequese, formação bíblica e ações sociais, a Casa da Vó segue viva e ativa. Uma verdadeira referência de fé que não se limita ao passado, mas aponta com firmeza e esperança para o futuro.
Como disse dona Odette, que viu o bairro crescer ao redor da igreja, “quero que isso continue. Que a fé que me trouxe até aqui também leve adiante as novas gerações”.
Confira na íntegra a entrevista do padre Beto concedida ao jornal Semanário da Zona Norte
JSZN: Padre, em primeiro lugar gostaria de perguntar sobre suas origens, especialmente sobre a sua família.
Padre Beto: Eu, José Roberto Abreu de Mattos, mais conhecido como padre Beto, nascido em Cafelândia/SP, em 19 de julho de 1969. Com seis anos de idade me mudei para São Paulo com meus seis irmãos, para o bairro da Casa Verde. Enquanto minha mãe trabalhava limpando a Paróquia de São João Evangelista, eu já começava a servir como coroinha. Somos em sete irmãos, portanto uma família numerosa com bastantes sobrinhos e sobrinhos netos.
JSZN: E a vocação ao sacerdócio, como o senhor percebeu esse chamado de Deus. O senhor gostaria de destacar algum momento que tenha sido decisivo para o seu sim a esse chamado?
Padre Beto: Creio que minha vocação sacerdotal nasceu no colo de meus pais, Hermes e Terezinha, pois é no aconchego de uma família cristã que brotam as vocações. Desde os tempos de minha infância Nossa Senhora sempre fez parte de minha vida e foi a partir da recitação do Santo Rosário e das celebrações eucarísticas que fui amadurecendo a minha vocação. Dizia ainda criança: “quero ser padre quando eu crescer!”
Mas foi somente aos 18 anos, após terminar o ensino médio (antigo colegial) e exercer minhas atividades dentro da comunidade, que fui para o seminário da arquidiocese de São Paulo, de 1989 a 1991
JSZN: Nos conte um pouco sobre o seu processo de formação e de ingresso na congregação.
Padre Beto: Estudei Filosofia e Teologia de 1992 a 1996, quando fui ordenado presbítero em 17 de agosto de 1996.
Por dois anos fui Vigário Paroquial da Paróquia Santa Isabel, no bairro da Casa Verde e em seguida Pároco da Igreja Santo Antônio do Lausanne, ficando lá por sete anos. Neste período fiz mestrado em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Fui então enviado para Roma, onde doutorei em Filosofia. Retornando em dezembro de 2008. Assumi como Pároco a Paróquia Santa Joana D’Arc, no Jardim França.
Após 10 anos e meio nesta paroquia, assumi como pároco a paroquia de Santana, desde 24 de março de 2019. Atualmente também leciono na Pontifícia Universidade de São Paulo. Sinto-me feliz por ser padre e, com a graça de Deus, nesses quase 29 anos de sacerdócio, posso dizer que nunca me arrependi, nunca pensei em voltar atrás.
JSZN: O senhor se lembra de quando chegou à Basílica e aquilo que mais o chamou a atenção?
Padre Beto: Chego na Paróquia em 24 de março de 2019, como supracitado. Eu admiro muito a realidade de estar na casa da Mãe de Nossa Senhora, é de certa forma um afago de Deus cuidar daqui. A Basílica precisava ser zelada e restruturada em muitas coisas, por aqui é muito trabalho e trabalho constantemente. No ano seguinte pedimos ao Santo Padre o Papa a elevação da Paróquia para o título de Basílica, o que exigiu um trabalho hercúleo de levantamento histórico e até de transformações estruturais para acolher um título tão distinto dado pelo Santo Padre o Papa Francisco.
JSZN: Quais serão suas prioridades pastorais na Basílica?
Padre Beto: Na atual conjuntura pastoral da Basílica, reflexo da estruturação proposta pela Arquidiocese de São Paulo, não existe uma prioridade, aliás não tem como priorizar apenas uma dimensão das numerosas atividades que aqui ocorrem. Somos uma comunidade muito viva e na dinâmica do testemunho, da santificação e do anúncio buscamos com as forças de todos os batizados, homens e mulheres generosos no serviço, com uma gama de dons que enriquecem a nossa comunidade. Temos um trabalho intenso com a catequese (número expressivo de crianças, adolescentes, jovens e adultos), com os vicentinos e o café da manhã, oferecidos as famílias carentes e aos irmãos em situação de rua e vulneráveis, respectivamente; uma vida litúrgica e espiritual ativa com diversos grupos e movimentos devocionais, com três horários de missas diárias, confissões de segunda à sexta nos dois turnos e muitos momentos devocionais e de espiritualidade. Muitas famílias são acompanhadas pela pastoral dos noivos, o terço dos homens e a Oficinas de Santa Rita que propõe trabalhar com as mães e os nascituros vulneráveis, abarcando assim todas as fases da vida familiar, que vai do namoro ao convívio familiar; uma forte pastoral da escuta onde muitos transeuntes são ajudados com um olhar de empatia, mas sobretudo com a caridade cristã. Nossa vida pastoral deve preencher todo o sentido de ser de uma basílica, buscando divulgar bem seus serviços por meio de uma Pastoral da comunicação organizada e de vivência de pastoral orgânica, ou seja, com uma dinâmica e força viva, intimamente interligada. Além das realidades pastorais locais, existe em nossa vida pastoral a presença da Comunidade Canto de Maria, que há mais de 30 anos, com um estatuto próprio, trabalha com os jovens de nossa paróquia e auxilia na missão evangelizadora e de caridade, na comunidade do Cingapura (Comunidade Nossa Senhora Aparecida do Cingapura-Zaki Narchi), pertencente à nossa Basílica.
JSZN: O que a Basílica está preparando para a celebração dos 130 anos?
Padre Beto: Aprouve Deus que todo este ano a Igreja Católica vivenciasse o Jubileu da Esperança 2025, assim, nossa celebração de 130 anos está intimamente ligada ao Jubileu Universal. Dentre as mais de 300 paróquias da Arquidiocese de São Paulo, a Basílica foi escolhida e compõe o grupo de 12 lugares de peregrinação deste ano santo, significando o caminhar do cristão rumo a uma meta definitiva e que realiza toda a nossa esperança. Recebemos durante todo este ano muitos peregrinos, das mais diversas paróquias, pastorais, movimentos, associações e grupos de fiéis, que nos visitam e recebem as indulgências concedidas pela Igreja neste período. Assim, no dia 12 de julho, às 15:30min nossa comunidade reunirá para celebrar de maneira solene os 130 anos de criação de nossa Paróquia. Presidirá a Santa Missa, o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, diversos sacerdotes que passaram por nossa Igreja e fez história, além dos outros sacerdotes da Zona Norte e demais localidades de São Paulo, diversas autoridades dos três poderes em nível municipal e estadual. Neste dia haverá a típica Quermesse de Santana, iniciada já no dia 28 de junho e que segue por todos os finais de semana de julho, repleta de alegria, como um momento propício para nos confraternizarmos e agradecer a caminhada já realizada, vislumbrando o que ainda estar por vir, com um olhar e um desejo repleto de esperança.
Uma equipe preparada na Basílica deseja atrelar a vivência do Jubileu 2025 às comemorações dos 130 anos desta igreja que é um dos símbolos do bairro de Santana, ela proporcionará vistas aos peregrinos para que conheçam a história da Paróquia durante as peregrinações. Essa recapitulação histórica também acontecerá de maneira audiovisual. Serão lançados vídeos com os leigos da Paróquia e alguns padres que por lá já trabalharam e que falarão sobre a história da Basílica, sempre na perspectiva de que celebrar estes 130 anos também é razão de esperança. Esse conteúdo também será disponibilizado nas mídias sociais. Foi lançado o logo dos 130 anos, como parte da memória paroquial e como forma de alcançar as nossas famílias, introduzindo todos num espírito de festividade e de ação de graças por nossa história.
JSZN: Qual mensagem o senhor deixa para os fiéis?
Padre Beto: Num ano de tantas renovações, aponto para a esperança, perante esta sociedade do cansaço, certamente ela é um antidoto. Uma esperança que não trás ansiedade, mas a possibilidade de saborear o presente com amor e amor profundo. Esta esperança nos faz crer em Deus com profundidade e com um desejo sincero de estar com Ele. A esperança que não decepciona! Que as alegrias de cada dia, as pequenas, corriqueiras e singelas, sejam agarradas e nos deem a força necessária para viver com um sentido profundo.
JSZN: Qual a importância das mídias regionais, em especial do jornal Semanário da Zona Norte?
Padre Beto: Reconhecemos a importância das mídias e tantos meios de comunicação como uma fonte de propagação da esperança. Creio que a palavra pode ser propagada, e uma palavra boa, com compromisso ético e que resguarde o valor da dignidade humana, sempre terá respaldo social. Sabemos da pujança da região norte e as numerosas ações de promoção da vida, estas boas notícias devem ser colocadas no alto, devem ser propagadas. Assim creio que o jornal Semanário da Zona Norte é um instrumento de esperança. É a propagação do compromisso com a verdade e com a justiça, indo contra as forças que propagam a mentira e até invertem os valores e a beleza da humanidade, tão desfigurada pelo egoísmo e a indiferença.
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