Para filósofos clássicos, como Platão e Aristóteles, a filosofia começa no espanto, na perplexidade e na admiração diante do mundo que nos cerca, sendo considerada por eles o ponto de partida para a busca do conhecimento e a própria origem do filosofar. Pode-se dizer, portanto, que o fascínio, em si, é uma das forças mais belas da experiência humana: é o reconhecimento de que algo nos ultrapassa e merece nossa atenção, tornando-se o motor da investigação, tal qual acontece com o cientista diante de um enigma.
O problema surge quando a admiração deixa de conviver com a dúvida, e o questionamento passa a ser um inimigo a ser vencido. É nesse terreno que nasce o fanatismo, cuja porta de entrada é o orgulho; a história mostra o custo dessa transformação. Guerras religiosas, regimes totalitários e perseguições políticas foram sustentados por pessoas comuns que, em algum momento, trocaram o pensamento crítico pela obediência apaixonada. O fanático fecha-se em si mesmo, crê ser um privilegiado e acredita ser um dos poucos que consegue enxergar a verdade.
É oportuno dizer que o fanatismo, de modo algum, pertence a uma ideologia específica. Ele pode surgir, no esporte, na política, na religião, nas instituições, ou seja, em qualquer situação do cotidiano. Aliás, quem está fascinado raramente percebe que está enganado: aceita o absurdo como sublime e afasta quem critica.
Cabe dizer que o caminho do fascínio ao fanatismo é o da razão adormecida. A prevenção contra esse mal passa pela humildade, pelo estudo sério e pela vigilância moral. Fecha as portas às influências inferiores quem cultiva a reforma íntima, age com sinceridade, apega-se aos princípios e aos valores, e aceita a crítica fraterna. Isso significa admirar sem idolatrar, defender ideias sem desumanizar quem pensa diferente, manter o senso de hierarquia e a disposição de rever as próprias convicções. Tais atitudes preservam o encantamento sem transformá-lo em cegueira.
O antídoto fornecido por Allan Kardec para inibir o fanatismo é, fundamentalmente, a fé inabalável, por ele definida como aquela que “... pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade”. Isso porque, a fé raciocinada se apoia em fatos e na lógica e, por isso, jamais teme o exame crítico, o que é aplicável a todas as situações do dia a dia.
Assim, quem é incapaz de duvidar daquilo que ama deixou de amar uma ideia para se tornar prisioneiro dela. Manter os olhos abertos diante do brilho do mundo é a única forma de prevenir que o deslumbramento de hoje não se torne a intolerância de amanhã.
Afinal, contra o fascínio e o fanatismo, o melhor remédio é o bom senso e a humildade.
*Paulo Eduardo de Barros Fonseca