Promessa você tem de pagar, mesmo fazendo sacrifícios. Religiosamente, não cumprir o que prometeu é uma perigosa ofensa. Politicamente, como estamos vendo, pode ser exigência de mudança de rumos para obter resultados práticos. Se, antes da autocrítica, você perceber que insistindo vai colher fracassos, é preciso urgentemente mudar de ideias. Bem melhor mudá-las do quem não tê-las.
É a situação do momento. Não dá mais para as coisas continuarem como estão. As urnas de outubro deixaram o recado nitidamente singular. Dessa vez, além da polarização “a” x “b”, ficou a mensagem nada cifrada. A rejeição dupla: forma de escolher como se fosse única alternativa possível. Portanto, na matemática ortodoxa, nenhum lado venceu sozinho. Traduzindo: um dos lados venceu captando seus votos, mas não ganharia sem o outro lado, o numeroso eleitorado do meno male. Se fosse possível ao povo ter ventríloquo, ouviríamos em uníssono a recusa em aceitar insistentes formatos de um estilo político ultrapassado.
Um amargo e duplo menos ruim, significa que hábitos totalmente inadequados precisam ser rejeitados, pois a realidade exibe a dramática e sábia descrição bíblica: pior tipo de cego é aquele que se recusa a ver. Quando a cegueira é deliberada, como no romance do Nobel Saramago, fica evidente a situação na qual fomos enfiados: muita gente, próxima de nós inclusive, preferiu romper amizades, familiares até, para apoiar um ídolo que nem conhecem, mas seguem com ardor, provocando uma ruptura lamentável de relacionamentos na desajustada balança da racionalidade.
A balança funcionou assim: ficar de um lado, mesmo vendo que erros crassos estão sendo cometidos, e uma outra perspectiva, desconfiada, sem atrelamentos ideológicos, raciocinando: é preferível manter o status quo do que se arriscar no que poderia ser uma aventura bem perigosa.
Uma quinada de 360 graus vem por aí. O enigmático “mercado” já sinalizou uma grande desconfiança. Os vencedores do pleito perceberam e já estão fazendo os planos para uma súbita conversão política, admitindo que cometeram erros inequívocos e necessitam mudar de rumo imediatamente. Muitas promessas foram feitas. Dívidas morais a curto, médio e longo prazo. Não há tempo a perder. Nada de preferências por cupinchas, negociações com ofertas de cargos e alma vendida para o maligno da mentira. O brasileiro vai cobrar as dívidas. Talvez com juros.
*Jornalista e escritor