O gângster Al Capone comandava o contrabando de bebidas. Escapava sempre das tentativas de prendê-lo. Sua carreira criminosa só chegou ao fim graças à astúcia de um detetive do FBI, Eliot Ness, por meio incontestável de perícias contábeis, algo equivalente ao Coarf brasileiro. A técnica de investigação da polícia federal americana vigora até hoje: “siga o dinheiro”. Asfixia do crime. Vi isso na sua própria Academia, em Quântico, na Virgínia. Na entrada, está um busto do seu lendário fundador, Edgard Hoover.
Policiais brasileiros fazem cursos de aprimoramento no FBI. Curioso: por aqui se multiplicam modernos Capones, dominantes no crime estruturado e sofisticado, causando grandes estragos na vida social e patrimonial. Vivemos esse momento, com variados aspectos, em todas as esferas republicanas, exalando tipos de odores impossíveis de suportar.
Que fazer diante das graves suspeições que giram em torno do Executivo, do Legislativo e do Judiciário? São tantos os malfeitos que, entre consequências nocivas, deixam de lado comportamentos de idoneidade e projetam uma dolosa imagem para os escalões socialmente inferiorizados, que se sentem estimulados pelo chamado andar de cima.
Assistimos a isso em várias esferas, entre elas -quem diria? – a mais alta Corte e Justiça, outrora conhecida por notáveis e éticos saberes e idoneidades, hoje com nomes mais popularizados do que os jogadores da seleção brasileira de futebol. A avaliação é do próprio presidente da Corte, Edson Fachin. Num evento em São Paulo, ele disse que o Poder Judiciário “precisa colocar diante de si um espelho, no qual possa se ver para enxergar possibilidades e também enxergar os seus limites”. A frase é forte. Reflete imagem: “é fundamental reconhecer que estamos imersos numa crise que precisa ser enfrentada”. Como encarar o espelho? Segundo Fachin, “com olhos de ver e ouvidos de ouvir”, recorrendo à parábola do semeador, narrada no Evangelho de Mateus, explicitando o olhar como forma ampla de compreensão e ouvidos que percebam. O ensinamento de Jesus é perfeito e sempre aplicável. Os Capones daqui metem as mãos em cumbuca, gatunos atacam o Erário, ladravazes atacam com voracidade gulosa espantosa.
Reagir é preciso. Queremos acreditar, embora as coisas andem difíceis. Mas, com muito esforço, a esperança lá no fundo da mitológica Caixa de Pandora, nos indica: ainda há tempo.
*Jornalista e escritor
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