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Colunista Otávio Santana do Rêgo Barros

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Falas de chefes militares têm reflexos. Precisam ser ponderadas. Palavras lançadas ao vento, não voltam atrás
O filósofo e sacerdote jesuíta Antônio Vieira, renomado orador, preencheu magistralmente o vazio literário do Brasil no século 17 com clássicos sermões. Suas falas, dirigidas a um público hipnotizado, envolviam um perfeito português e uma justa harmonia entre as ideias. Vez por outra, emboscava os ouvintes. “Maldito seja o pai, maldito seja o filho, maldito seja o espírito.” Uma pausa inesperada, um suspiro prolongado, um olhar ardiloso. “Essas, meus irmãos, são as palavras mais proferidas nas profundezas do inferno.”
Para comunicar é preciso propósito, estratégia. Identificar o público e conquistá-lo. Convencer a convencidos não é comunicação. É fala modorrenta, irrelevante. Nos discursos para cerimônias do Exército, a autoridade define a linha mestre da mensagem, um assessor a constrói em rascunho. O texto é submetido a outras autoridades que aportam ideias, contestam as formuladas, colaboram no encaixe da mensagem ao público e ao momento.
Falas de chefes militares têm reflexos. Precisam ser ponderadas. Palavras lançadas ao vento, não voltam atrás. O discurso se apoia no fato histórico que motiva a alocução, com o cuidado de não suscitar qualquer dúvida quanto ao papel legal e institucional assumido pela autoridade, a nome da Força.
No sábado (14/8/21), ocorreu a cerimônia de entrega do espadim, símbolo de honra, portado por cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Olhar focado no futuro, impulsionado nos exemplos do patrono: o Duque de Caxias.
O comandante da Aman proferiu um elegante e, ao mesmo tempo, emocionante discurso. Assumiu, diligentemente, o papel esperado de um líder devotado, a conduzir jovens, homens e mulheres, para um compromisso de vida. Perfilado abaixo da frase esculpida na parede do Pátio Marechal Mascarenhas de Moraes: “Ides comandar, aprendei a obedecer”, ele assim se expressou. Sobre o patrono: “...em tempo algum viu-se ofuscado por traços de prepotência, arrogância ou revanchismo”.
Sobre a servidão militar: “... aceitem, incondicionalmente, o encargo de construir o destino de grandeza do país e do nosso Exército, unindo-se, em definitivo, à ética por nós professada e à mentalidade homogênea que mantém nossa Força monolítica.” Sobre dever coletivo: “... não há registro de exército vitorioso sem homens abnegados, que aceitem sorrindo subordinar suas aspirações pessoais aos interesses do grupo.”
E, ao concluir: “... num mundo que se transforma com rapidez maior do que a capacidade de adaptação às novas realidades e onde o relativismo parece haver se tornado a constante, é provável que encruzilhadas surjam em seus caminhos ... não hesitem em recorrer aos nossos códigos, aos nossos valores e às nossas mais caras tradições”.
De cadete a general leva-se mais de 30 anos. Incorporam-se, na caminhada, o espírito de camaradagem e de lealdade, lado a lado com a ética e a moral, com a hierarquia e a disciplina. Enquanto cadetes, aprendem que é pecado mortal ofender a sacralidade dos valores professados pelo Exército. Incorporam o conceito pétreo de Instituição de Estado. Sabem que a missão está cinzelada no art. 142 da CF/88, sem nenhum outro adendo que a desconstrua.
É justo, portanto, em momentos de incertezas, trazer-vos esse tema, apontar que, há muito, a “política do Exército” derrotou a “política no Exército”. É como no poema de Brecht: “Que a suave água em movimento com o tempo vence a pedra poderosa”.
Não há possibilidade de interseção entre o suave “do” e o poderoso “no”. Quem tenta promovê-la mostra-se escravo da desilusão moral, da concupiscência. Se consome na empáfia temperada na subserviência. A condição de servir como administrador da violência em nome do Estado, por demanda exclusiva da sociedade, não cabe recurso. Transitou em julgado, requer total dedicação a quem se serve.
Depressa, a sociedade precisará assumir a responsabilidade intransferível pela construção da estrada que levará de jovens cadetes a profissionais maduros a ombrear com cidadãos não fardados na caminhada rumo ao objetivo permanente da nação: a paz e o desenvolvimento sociais. Aqueles que teimam em se posicionar contra aquela servidão, que não lancem palavras ao vento.
Vivo, o Padre Vieira curvar-se-ia ao discurso do comandante, mas olhar-vos-ia, oradores inconsequentes, com ironia e pena. “Perdoai-vos Senhor, eles não alcançam o que dizem e fazem!”
Paz e bem!

 *Otávio Santana do Rêgo Barros é general de Divisão R1

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