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Mors omnia solvit?

Colunista José Renato Nalini

Mors omnia solvit?
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Os romanos nos legaram a arquitetura do nosso pensamento, depois que sistematizaram a notável contribuição helênica. Um dos brocardos sempre lembrados é o “mors omnia solvit”: a morte tudo apaga. Muito utilizado na ciência jurídica, a significar que os crimes continuam a ser fatos fenomênicos – não se pode mudar a realidade fática – mas se o seu agente faleceu, o Estado não pode mais puni-lo.
Mais popularmente, usa-se dessa expressão para dizer que não se deve criticar quem não pode se defender. Já foi. Está no etéreo, é só lembrança. Por que continuar a falar mal de quem não está mais aqui?
Só que isso não vale para celebridades. Ao contrário, há uma incessante busca de revolver existências passadas, para continuar a condenar atitudes. Se isso fosse feito para fins pedagógicos, para convencer os vivos a não incidirem nas mesmas práticas, ainda vá lá. Só que parece predominar uma espécie de sadismo, como se a figura sepulta ainda pudesse sofrer com o julgamento póstumo, a mostrar remorso ou arrependimento por coisas das quais é acusada hoje. Nenhuma a possibilidade de que viesse a assumir alguma culpa ou se redimir. 
É o que acontece com Steve Jobs. Atribui-se a ele ser temperamental, impulsivo, teimoso, opressor de seus funcionários, repudiou a própria filha. Quando tinha 23 anos, ele negou ser pai de Lisa Brennan, demorou um ano para se submeter ao teste de DNA. Negacionista do resultado, finalmente aceitou a paternidade e se reconciliou com a filha.
Quem trabalhou com ele conta que ele gritava, ofendia, fazia sinais chulos e, embora reconhecesse o gênio difícil, dizia que “era seu jeito”. Levou o IPhone para a China e o clima de opressão fez com que em 2010 se registrassem treze suicídios entre os funcionários. Nunca se solidarizou com as famílias. Dizia que a Foxconn tivera suicídios e algumas tentativas, mas também contava com quatrocentas mil pessoas que dispunham de restaurantes, cinemas, hospitais e piscinas. Isso fazia da fábrica um lugar “bem legal”.
Nunca aderiu à responsabilidade social. Quando fazia doações, optava pelo anonimato. Não queria ver-se vinculado a causas nobres. Outro episódio controvertido é que em 1980 ele acusou Bill Gates e a Microsoft de plagiarem a interface gráfica do Macinthosh, para criar o Windows em 1985. Bill Gates disse que a ideia fora roubada da Xerox na década de setenta. Jobs continuou a hostilizar Gates até final de sua vida.
Será que isso tudo obscurece o que ele legou para o mundo? Afinal, como enfatizou em vida, assumiu todos os erros e disse “eu não tenho nenhum esqueleto no armário”.   

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022.

 

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