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Guerra do futebol

Colunista Otávio Santana do Rêgo Barros. General de Divisão R1

Guerra do futebol
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Caso os profissionais desse jogo não atuem dentro da legalidade, nos escapará a chance de
vencermos o campeonato da democracia
Nos acostumamos a metáforas futebolísticas para tudo. Somos a pátria da chuteira, reis do futebol, cinco vezes campeões do mundo e maior celeiro de jogadores.
É natural valer-se dessa figura de linguagem para comentar o entrechoque dos poderes constituídos da República. Uma confusão que assumiu proporções inaceitáveis, avessas ao que se deseja de serenidade para o país.
Estavam em campo as equipes do Executivo Esporte Clube e Clube de Remo Supremo. O juiz era do quadro de árbitros do poder legislativo, cuidadoso órgão redator das regras do jogo.
Com tantas provocações, veio à lembrança o conflito conhecido como “guerra do futebol”. Uma escaramuça entre Honduras e El Salvador iniciada por desavenças nas eliminatórias para a Copa do Mundo do México. Cem horas de caos.
As partidas entre os times do Supremo e do Executivo sempre foram duras batalhas. Nessa, a pandemia impediu os torcedores de assistirem ao jogo final dentro do estádio. Nos arredores, houve choques entre grupos rivais, com cenas de inaceitável violência, contidos pela polícia militar. Comentaristas tinham dúvidas sobre a capacidade dos órgãos de segurança pública de controlar o ambiente.
Com a bola rolando, um zagueiro do Supremo dividiu com firmeza e atingiu o tornozelo de um jogador adversário. Os ânimos se exaltaram. Cartão amarelo, chamada de atenção aos capitães dos times e um alerta: o próximo será vermelho.
O revide foi violento. O centroavante do Supremo sofreu um carrinho e teve a perna lacerada pelas travas das chuteiras do goleiro do Executivo. O árbitro sacou o cartão vermelho, expulsou o agressor e marcou a penalidade máxima.
Começou um empurra empurra, comissões técnicas trocaram desaforos. O juiz, incapaz de conter o tumulto, correu para o vestiário e encerrou a partida.
Na súmula, sequer relatou a confusão. Não queria se comprometer. Todos que assistiam pela TV não entenderam a leniência. Viram as claras infrações das regras do fair-play.
Os juízes do VAR também não avaliaram prontamente a dimensão do ocorrido e as consequências para a disputa. Silenciaram diante do entrevero.
Deveriam atuar, pois representam a sociedade não extremada. As instituições apartidárias. Os órgãos com funções de Estado. Exigem alinhamento à sadia convivência entre poderes e, principalmente, à consciência de bem servir para a estabilidade social.
O jogo foi um péssimo espetáculo. O conflito não ficou restrito às quatro linhas do Monumental da Democracia. Espalhou-se como fogo em campo seco. Ocorreram invasões das sedes dos clubes, quebras de vitrines, impossível relativizar.
Uma ficção, por certo, mas com possibilidade de tornar-se realidade.
Caso os profissionais desse jogo não atuem dentro da legalidade e com equilíbrio emocional, nos escapará a chance de vencermos o campeonato da democracia – no qual ganhar ou perder é reflexo da boa e justa discussão de ideias.
Não carrego dúvidas quanto ao desejo da maioria da sociedade, mesmo dos torcedores das equipes em confronto: NÃO a uma nova “guerra do futebol”. A polarização de momento exige evitá-la.
A persistir a MARCHA DA INSENSATEZ, termo da Bárbara Tuchmann, com a cegueira que impede os duelistas de avaliarem o desastre de seus comportamentos, a solução é o VAR interferir no processo. Chamar ao vestiário do diálogo os envolvidos e solicitar impositivamente que voltem ao jogo sob as regras vigentes. Os que se recusarem serão banidos do torneio.
O agir é premente. O controle das torcidas não está nas mãos dos cartolas. A dinâmica é historicamente conhecida. A massa está sendo manipulada. Pedir moderação é quimera. Alguns dirigentes nunca trabalharam com ela. Diálogo quando possível, ações firmes quando necessárias: é o que nos resta. Além disso, a incerteza.
Paz e bem!

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