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Sexta-feira, 24 de Abril 2026

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Quais as cartas de Trump?

Colunista *Otávio Santana do Rêgo Barros

Quais as cartas de Trump?
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Toda semana nos deparamos com uma declaração bombástica, postada pelo presidente Donald Trump ou por seus auxiliares, capaz de fazer o mundo tremer.

Algumas verdadeiras, outras falsas, como em um jogo de truco, com o presidente de posse de um “zap” ou apenas “mentindo” para, logo em seguida, tomar um retruco e se aquietar em sua cadeira imperial.
O simples fato de enunciar uma decisão ou comentar um desejo faz com que analistas geopolíticos mundo afora voltem-se para Washington, a fim de avaliar o jogo.

Nesse segundo mandato, ele tem abusado do padrão do morde e assopra. Anuncia uma medida dura, o mundo reage e, logo depois, vem o ajuste, seja por adiamento, recuo ou mudança de escopo.

O exemplo mais didático foi o tarifaço de abril de 2025. Tarifas amplas foram anunciadas e, poucos dias depois, em nova declaração, decretou-se uma pausa de três meses para sua aplicação. À medida que os países iam se adaptando ou revidando, as “punições” eram ajustadas.

A postura do morde costuma ser assimétrica. A do assopra depende do rival.

Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro – acusado de líder narcoterrorista - na cidade de Caracas. Junto com o choque da notícia, a certeza: Washington estava disposto a cruzar linhas que muitos julgavam improváveis.

No Oriente Médio, houve ataques contra os Houthis no Iêmen, acompanhados de avisos ao Irã, alimentando a tensão na região. Nesta semana, porta-aviões americanos operam próximos ao Estreito de Ormuz — alguma semelhança com a ação na Venezuela?

Na Síria, os Estados Unidos atacaram alvos do Estado Islâmico em resposta a agressões contra tropas americanas, reforçando, junto ao público interno, a percepção de decisões rápidas em apoio ao “America First”.

Por outro viés, Trump assumiu-se protagonista de um acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas, assinado em outubro de 2025, apresentando-se como um líder preocupado com a paz.

Nesse cenário, Trump deseja redesenhar a arquitetura geopolítica internacional. O Conselho da Paz, por ele proposto, surge como um organismo paralelo, capaz de arbitrar crises, alijando a ONU de sua suposta missão.

Como enfrentar essa insegurança?

Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, tem buscado firmeza sem espetáculo. Evita a escalada verbal e tenta ampliar o apoio externo, como quem desenha uma “terceira via”, para impedir que Trump dobre a aposta.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, tenta, publicamente, desescalar e manter um tom sereno e institucional. Nos bastidores, prepara mecanismos de retaliação para que a resposta da UE seja rápida, caso a ameaça estadunidense se converta em medida concreta.

Emmanuel Macron, presidente da França, atua como contraponto político e simbólico. Apresenta-se como voz da autonomia europeia, insiste que a Europa não pode viver sob chantagem comercial e procura transformar tensão em coesão interna.

Já a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, adotou a narrativa da defesa da soberania: a Groenlândia não está à venda. Evita bravatas e ancora-se no direito internacional e na OTAN para manter as discussões dentro de um padrão institucional, afastando negociações personalistas.

A China, sob a batuta de Xi Jinping, responde com previsibilidade estratégica. Em vez de entrar no jogo do improviso, sinaliza ou impõe retaliações, como controles de exportação e pressão sobre cadeias de insumos críticos, para mostrar que o custo para os EUA pode ser alto e prolongado.

Por sua vez, a Rússia de Vladimir Putin joga com frieza e cálculo. Explora divisões no Ocidente e aposta no desgaste prolongado que lhe interessa. Não busca consenso e está convencida de que pode suportar a pressão.

O modelo comum a todos eles é baixar a temperatura em público, não alimentar o “pão e circo”, tratar cada anúncio como ameaça potencial — não como fato consumado — e, quando possível, contra-atacar.
Ao mesmo tempo, planejam um conjunto de ações para os mais diversos cenários, diversificam parceiros e instigam mecanismos coletivos. Em síntese, a resposta à ciclotimia trumpiana parece incorporar menos “Aquiles” e mais “Odisseu”.

Voltando ao truco mundial, essas lideranças só sobem na mesa se tiverem, no mínimo, um “sete”. Com cartas menores, arriscam com a incerteza — incerteza que também é parte do mundo de Trump — e, na dúvida, correm do jogo.

Este torneio mal começou. As regras ainda serão mudadas várias vezes. Jogadores veteranos ficarão pelo caminho. Cabe-nos observar piscadas de olhos, comunicação usadas no truco, e aprender a antecipar quem tem cartas e quem mente.

Otávio Santana do Rego Barros, general de Divisão da Reserva

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