Há muitos apaixonados pela saga Star Wars, série conduzida pelo renomado cineasta George Lucas. Minha filha está entre eles.
Debatíamos sobre o ambiente político disfuncional em que vivemos. Era uma discussão de cunho filosófico, para além da plasticidade dos filmes. Ela me instigou a conhecer um dos episódios mais arrebatadores da saga.
Em Star Wars: A Vingança dos Sith, Palpatine (Darth Sidious) não chega ao poder por meio de um golpe clássico. Utiliza as instituições da República para manipular e concentrar progressivamente o poder.
A República vive uma guerra, a população está insegura e os legisladores não encontram respostas para os desafios.
Palpatine apresenta-se como o único capaz de restabelecer a ordem. Exige poderes maiores para enfrentar a crise. À luz da racionalidade, parece aceitável: tempos excepcionais, medidas excepcionais.
Nos bastidores, porém, ele alimenta a própria crise. Quando os Jedi descobrem suas intenções e tentam detê-lo, Palpatine convence Anakin Skywalker (Darth Vader) — um jovem Jedi — a se voltar para o lado negro da Força, enquanto transforma a ação dos guerreiros Jedi em uma história de tentativa de golpe.
Na cena mais simbólica do episódio, anuncia que a República será transformada no primeiro Império Galáctico — sob seu cetro de chanceler.
E o Senado o aplaude estrondosamente.
É nesse momento que Padmé Amidala — a mocinha —, consciente do perigo, pronuncia a frase que atravessaria a ficção: “É assim que a liberdade morre: com um estrondoso aplauso.”
No século XX, aprendemos a reconhecer uma ruptura democrática clássica: soldados nas ruas, parlamentos fechados, constituições rasgadas e adversários presos.
No século XXI, novos métodos demonstram que a democracia pode ser corroída em fogo lento e, incrivelmente, a partir de suas próprias entranhas.
O “chanceler” chega pelo voto. Logo questiona os limites do seu poder. Ataca os mecanismos de controle. Atropela a imprensa. Instituições garantidoras da ordem democrática passam a ser tratadas como suspeitas. O adversário transforma-se em ameaça a ser eliminada.
Ele tem que ser contido! E, paradoxalmente, somente a desconfortável democracia que o levou ao poder é o antídoto contra suas intenções.
Quem vence uma eleição recebe o direito de governar, não o direito de subjugar. Democracias discutem, negociam, estabelecem limites e produzem compromissos. São lentas. Exigem resiliência.
A história nos lembra que é nas grandes convulsões sociais que surge a tentação do atalho. E há muitos dispostos a criá-lo.
Dolorosamente, nosso século acrescentou dois poderosos atores ao processo democrático: os algoritmos e a inteligência artificial.
A bem da verdade, o perigo não está na IA em si — uma extraordinária ferramenta de transformação —, mas na ausência de controles e em algoritmos capazes de seduzir pela oferta incessante de conteúdos que capturam a atenção dos desprevenidos.
A propaganda do século XX falava para milhões ao mesmo tempo. A propaganda do século XXI fala diretamente com cada um. Basta oferecer a cada pessoa a narrativa que explore seus medos e confirme suas certezas.
Nunca tivemos tanto acesso à informação e, talvez por isso, nunca estivemos tão longe da verdade. Podemos estar vivendo a era da industrialização do dissenso. Aliás, em Engenheiros do Caos, obra de Giuliano da Empoli, esse processo é primorosamente explicado.
Para o surgimento de um novo Palpatine, talvez nem seja necessária uma revolução armada ou uma crise social. Quiçá, apenas a sensação de que uma delas se aproxima ou já está em curso seja suficiente para o desabrochar dessa “liderança salvadora”.
Palpatine precisou de uma guerra. Os aspirantes a Palpatine do século XXI dispõem de instrumentos mais sofisticados e, lastimosamente, do aplauso de uma parcela da sociedade convencida de que renunciar a parte da liberdade é o preço necessário para recuperar a estabilidade.
“É assim que a liberdade morre: com um estrondoso aplauso.”
* Otavio Santana do Rego Barros General de Divisão da Reserva
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