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Sexta-feira, 24 de Abril 2026

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Orelha, e não somos ouvidos

Colunista *ARNALDO LUIS THEODOSIO PAZETTI

Orelha, e não somos ouvidos
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“Falei pra não ciscar. Ele ciscou, eu atirei.”, foi o que me disse um adolescente de 15 anos que acabara de matar um taxista ao assaltá-lo. Não estava sob efeito de drogas, não havia cólera nem ressentimento em sua voz. Naquele jovem inexistia qualquer traço de empatia pela vítima ou remorso. Decidiu tirar uma vida com a convicção de quem está fazendo a coisa certa ao matar uma barata que adentra à cozinha. Nossa subespécie é caraterizada por possuir o córtex pré-frontal desenvolvido como em nenhum outro animal. Mas, ainda, há outra característica exclusivamente nossa: a maldade. Não possuo formação na área da saúde mental, mas tenho impressão de que estava diante de um psicopata. Ainda que sofram alguma punição, psicopatas tendem a repetir o lesivo comportamento antissocial. Passadas algumas décadas, a história tem outros agressores e vítimas. Só permanece o modus operandi: a maldade que aflora e, ao que tudo indica, sem arrependimentos. Há poucos dias, em Santa Catarina, quatro adolescentes espancaram Orelha, um cachorro que vivia na Praia Brava e foi encontrado agonizando. Em respeito à sensibilidade do caro leitor, deixo de detalhar o que fizeram com o pobre animal. Levado ao veterinário, foi submetido à eutanásia para por fim a seu sofrimento. Não sou ativista de causas animais, o que não me impede de concluir que pessoas que maltratam cachorros são más. O que fizeram com Orelha foi além – crueldade extrema que o levou à morte. Dois outros cachorros que viviam por ali também teriam sido agredidos pelos adolescentes. Um foi levado ao mar para ser afogado e conseguiu escapar; o outro teve seu pescoço cortado e também sobreviveu. Estamos em Pindorama, é provável que esses rapazes não sofram consequência jurídica ou, no melhor cenário, nada além de algumas restrições. Há possibilidade de se tratar de personalidades psicopatas – ao menos uma, que poderia ter contado com a conivência dos demais adolescentes. Embora perplexos diante de episódios como esse, permanecemos impotentes, incapazes de criar condições de efetiva proteção à sociedade, incluída a adequada defesa de animais. É fácil – e triste – de entender: se não somos compromissados com a preservação da vida humana, por que daríamos importância à vida de animais? Chegará o dia em que o Estado nos ouvirá, e criminosos serão segregados, independentemente da idade, considerado apenas seu grau de atrocidade? 

*Coronel PM, advogado e escritor 

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