Ao estabelecer limites da decência, a ética não se limita só ao que os outros não devem fazer, mas sim a sociedade como um todo. Correto e incorreto, bem ou mal, sim ou não, fazer e não fazer, pecar ou não. Pode e não pode. Água e azeite não se misturam.
A autoflagelação ética, como se ela não passasse de um ornamento retórico é indispensável norma para orientar comportamentos de ordem moral ou social, para que os humanos vivam em harmonia. Antigamente, falava-se nos limites impostos pelo “paralelo 38”, referência a graus a norte do Equador, uma linha imaginária e divisória entre as Coreias do Norte e do Sul, que não poderia ser ultrapassada. Hoje, 38 virou calibre de arma de fogo e os limites éticos deixaram de ser respeitados com paralelos.
Nas terras brasileiras, abrange políticas, práticas e instituições carentes daquilo que foi definido por Aristóteles, na Grécia antiga, como “ethos”, ou seja, caráter, virtude entre equilíbrio e vícios, como escreveu na “Ética para Nicômaco”, seu filho. O “ethos” grego foi traduzido no latim como “mores” (costumes), mantendo o significado, visto por Kant, influente alemão da filosofia ocidental, como a ciência dos deveres morais. A ética foi violenta e dolosamente ferida, ficando cambaleante. Fala-se, para tentar atenuar, em ética na política. Mas poderia existir política sem ética?! Nas maravilhas prometidas pelo Executivo, desfilam as gastanças populistas, sempre de olho gordo nas eleições. No Judiciário, temos uma orgia insaciável faminta de supersalários, com ardís e cascatas para driblar o teto constitucional, tudo às nossas custas. Holerite pontual e não vocábulo. Algumas decisões, principalmente as monocráticas, nem se fale. Atingida e gravemente ferida, a ética não dispõe de escudo balístico moral, o que nos leva a perguntar quem poderia vigiar os vigilantes. A ética abrange decisões de caráter, sem a necessidade de ser vigiado, porque não se trata de poder fazer quando outros não estão vendo. Oportuno observar: Deus está vendo tudo.
Estamos encalacrados com os cada vez mais assustadores casos de corrupção, atos despidos do mínimo de humanidade, formação escolar de baixo nível e a tolerante premissa do vale-tudo. A sociedade percebe que chegou a sua hora de impor regras e limites aos nus de caráter e honra. Como juízes constrangidos a apitar seus próprios impedimentos, chegou a hora de agir.
*Jornalista e escritor
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