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Saindo da caverna

Colunista Paulo Eduardo de Barros Fonseca

Saindo da caverna
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Há aproximadamente 2.500 anos, portanto, por volta do século V a.C., Platão, discípulo de Sócrates – o pai da filosofia -, encarregou-se de apresentar os ensinamentos de seu mestre que nada havia deixado escrito. Em sua obra  A República – A Politeia - inseriu uma passagem que é conhecida como a Alegoria da Caverna ou o Mito da Caverna, escrita no método dialético, quer dizer, por meio da interrogação e da resposta.

Em seus simbolismos, o texto traz uma metáfora da condição humana perante o mundo que exprime a importância do conhecimento filosófico e da educação como estratégia para a superação da ignorância e, sobretudo, promove uma reflexão de como se pretende alcançar a verdade.

Essa história, em síntese, narra a vida de pessoas que nasceram e vivem no interior de uma caverna e, restritas àquele ambiente, ficam presas a certas imagens, sombras, crendices e superstições que desenvolveram. Na caverna contemplam apenas uma réstia de luz que refletia imagens no fundo da parede, com correntes ligadas aos seus corpos.

Habituados com essa imagem contemplavam o que achavam ser o mundo. Enxergando somente imagens distorcidas concluíram serem as mesmas verdadeiras. A vivência e experiência daquelas pessoas era totalmente dominada pela ignorância e preconceitos que as impedia conhecer a verdade. 

Certo dia, porém, um de seus habitantes resolveu desafiar os paradigmas ali estabelecidos e saiu para fora da caverna. Num primeiro momento a claridade afetou sua visão, mas aos poucos vislumbrou um mundo novo, colorido e com imagens totalmente novas. Era uma nova realidade!

Surpreso e maravilhado com o que viu retornou para a caverna empolgado para relatar a descoberta aos seus pares, ainda presos àquele mundo limitado. No entanto, presos àquela visão restrita e com medo de vivenciar uma nova realidade, ele não foi aceito e o conceito que tinham de mundo continuou a prevalecer.

A vida dentro da caverna, de um lado, representa o mundo sensível, aquele experimentado a partir dos sentidos, onde reside a falsa percepção da realidade. Por outro lado, a saída da caverna representa a busca pela verdade, o chamado mundo inteligível, alcançado apenas pelo uso da razão.

Esse texto, sempre atual e bom para estimular a reflexão, demonstra que não raro e há muito tempo muitas pessoas têm uma visão distorcida da realidade e, por preconceito, medo ou até mesmo comodidade, se aprisionam a concepções que são meras sombras e ecos, sem se permitirem buscar novas possibilidades.

Mas, como salientado por Agostinho de Hipona – Santo Agostinho -, “ninguém ama o que não conhece”, de modo que, invariavelmente, como seres em constante evolução, todos precisam estar disponíveis para novas descobertas, para um mundo por nós inexplorado. 

Portanto, tanto no aspecto exterior, material, mas, sobretudo, na busca do ser completo, ou seja, do nosso mundo interior, espiritual, é preciso se permitir sair da caverna, que apenas nos mostra imagens distorcidas, em direção à luz ainda que, num primeiro momento, isso possa nos ofuscar pois, posteriormente, vislumbraremos um mundo diferente, uma nova realidade.

Sempre nos é permitido sair da inércia e das ilusões dos nossos sentidos e sentimentos na busca de novos conhecimentos, reitera-se, não somente do ponto de vista material, mas, sobretudo, espiritual, para que possamos ponderar sobre as coisas de modo mais amplo e elevado, avançando um pouco naquilo que aprendemos e assimilamos.

O processo de reflexão por meio da observação das tendências pessoais, de desconfortos, frustrações e conflitos íntimos, é o caminho para que, pouco a pouco, aconteça a correção de hábitos, a superação das más tendências e a renovação de sentimentos e atitudes. 

Nesse sentido, aliás, é o outro importante alerta de Sócrates ao dizer: “Conhece-te ti a si mesmo”, revelando a importância do autoconhecimento como chave do progresso, sobretudo, espiritual. 

Desse modo, todos precisam se permitir buscar o seu verdadeiro sentido de viver, saindo do interior da sua caverna para buscar o seu caminho sem limitações, sombras e ecos, descobrindo um mundo novo, mais iluminado. 

Mas, como sempre, isso depende da atitude de cada pessoa.
                                 
Paulo Eduardo de Barros Fonseca

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