Reservamos um dia no ano, 2 de novembro, para celebrar os mortos. Mas a morte deveria estar em nossa mente com frequência maior. Pois é a única certeza, inevitável e quase sempre indesejável, na incerteza de nossa existência.
A filosofia sempre devotou imenso respeito à morte. Já se afirmou que nascer é começar a morrer. Seria a conta que não fazemos: um dia a menos, um dia a menos, até à chegada do derradeiro dia.
Filosofar é aprender a morrer. É aceitar a superveniência desse fato incontornável, que não aceita escusas, nem protraimentos. Ninguém escapa ao seu encontro com a ceifadeira.
Tivéssemos mais presente na consciência que este pode ser o último dia em que estarei na Terra, talvez minha conduta fosse outra. Tentaria me desligar de insignificâncias. Não nutriria ressentimentos. Seria aluno regular da escola do perdão. Não perderia tempo com aquilo que não me interessa. Não faria média, quiçá nem fosse politicamente correto.
A verdade é que os mortos continuam a nos reger. Foram eles que deixaram lições imorredouras. Projetos, planos, perspectivas e diagnósticos. Teve razão quem afirmou que os mortos governam os vivos.
No plano pessoal, quantas as pessoas queridas que já se foram. Com as quais seria tão bom poder conversar e trocar ideias. Há quem mantenha diálogo com os finados. Adivinham o que eles responderiam. Acatam até mesmo as suas censuras. Foram treinados a ouvir e a se aconselhar. Sentem-se caudatários desses mestres que prosseguem a reger nossa caminhada.
Para os que têm fé, a morte não deveria assustar. É passagem daquilo que temos a convicção de conhecer, para aquilo que nos é misterioso. O que haverá na outra esfera? Encontrar-me-ei com os seres queridos que deixaram vácuo enorme na minh’alma? Guardarei a minha individualidade? Terei a oportunidade de acertos de contas na eternidade?
Gosto de pensar que somos criaturas, criadas, arquitetadas, idealizadas e sonhadas por um Deus amoroso. Ele não nos teria fabricado para mero deleite. Fez-nos sensíveis, frágeis, vulneráveis e suscetíveis à dor. Anima-me acreditar que reservou para essa espécie um destino compatível com a dimensão de nossos sonhos. Não somos descartáveis. Somos dignos de algo correspondente aos nossos anseios. Que são imensos, pois nossa imaginação não tem limites.
Lembremo-nos com carinho e respeito, daqueles com os quais nos encontraremos, mais dia, menos dia. É o que eu espero!
*Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020.
José Renato Nalini