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Desafios entre avanço científico e moral

Colunista Paulo Eduardo de Barros Fonseca

Desafios entre avanço científico e moral
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A humanidade vive momentos de enormes contradições. Apesar do estrondoso avanço científico e tecnológico, um número cada vez mais significativo de pessoas enfrenta sérios transtornos existenciais e, porque não dizer, de sociabilidade. 

Vivemos um tempo em que os valores individuais e coletivos que orientaram e são fundamentais para a estabilidade da sociedade estão em xeque e isso abala os alicerces que envolvem cada pessoa e, como consequência, o seu meio. 

 A sociedade está segmentada. Os nichos, os grupos de interesse se formaram.  Cada fração social busca seu espaço. 

Isso dificulta a construção de um interesse comum, pela evidente dificuldade de conciliação dos diversos interesses, aliás, como salientou o sociólogo francês Allan Tourraine  - que na década de 1970 definiu os movimentos sociais como “a ação conflitante de agentes de classes sociais lutando pelo controle do sistema de ação histórica”, enquanto um sistema que dá direção para o desenvolvimento da sociedade – em um evento na cidade de São Paulo.

Ocorre que, o homem é um ser social e sob o aspecto humanístico e, porque não dizer, espiritual, o contexto envolvendo a questão científica e tecnológica, que tantas transformações tem feito na sociedade, e a (des)construção da sociedade - no que tange ao contrato social estabelecido - que afeta o ser no seu íntimo, resulta em paradoxos que desafiam a opinião consabida e geram contradições e incertezas que desestabilizam emocionalmente o ser humano.

Fato é que, apesar de toda tecnologia que está disponibilizada, quer parecer que o ser humano moderno é um ser fragilizado, ansioso, inquieto, talvez pelo evidente desejo de simplesmente ter. 

Supostamente, essa situação emocional crescente e persistente tem causado um desequilíbrio individual e coletivo, já que o comportamento de cada pessoa acaba por influenciar o seu entorno. 

Talvez isso explique o cada vez mais crescente número de casos de depressão que, para alguns, está se tornando o mal do século, o mal desta geração. 

A questão relativa à saúde mental é causa de enorme preocupação. Estudos estatísticos apontam que 80% (oitenta por cento) das pessoas sofrem, se martirizam, por ficarem remoendo fatos passados; 15% (quinze por cento) se afligem com eventos futuros, e, apenas 5% (cinco por cento) vivem com vigor o momento presente.

O mais significativo nisso é que, sobretudo, os jovens – cada vez mais cedo – tem demonstrado esse desiquilíbrio. Esse quadro, aliás, se agravou com a pandemia da Covid 19. São reiteradas as notícias envolvendo jovens em estado depressivo e, lamentavelmente, tentando contra a própria vida.

Associado a isso, parece que a tecnologia, o avanço tecnológico também tem inibido o prazer de viver e de conviver com outras pessoas. Aparentemente, o que deveria ser um recurso para aproximar pessoas está forjando uma geração disruptiva que, ao invés de ser gregária, se recolhe em solidão, isolando-se.

Esse comportamento tem gerado preocupações de várias ordens tanto que cientistas, como o neurocientista francês Michel Desmurget, especializado em neurociência cognitiva e autor do livro “Fábrica de Cretinos Digitais”, afirmam que os dispositivos digitais estão afetando o desenvolvimento neural das crianças e jovens, causando, pela primeira vez, a diminuição do QI – quociente de inteligência de geração para geração.

Diz o cientista que as evidências são palpáveis no sentido de que já de algum tempo os testes de QI - que é uma medida que indica a capacidade intelectual de uma pessoa e estabelece uma relação entre sua idade mental e cronológica -  têm apontado que as novas gerações são menos inteligentes que as anteriores, principalmente nos países dos “nativos digitais”, tais como: Noruega, Dinamarca, Finlândia, Holanda, França, etc.

Como o cérebro não é um “órgão estável” as causas disso seriam a diminuição da qualidade e quantidade de interações intrafamiliares e sociais, que são essenciais para o desenvolvimento da linguagem e, sobretudo, do emocional.

Ora, a ciência e a tecnologia não podem e não devem concorrer com a necessidade da socialização das pessoas. Os laços sociais são necessários ao progresso e quando isso não acontece, a partir da família, célula básica da sociedade, a criatura humana tende a se fazer perturbadora, sem estrutura ética, tombando no desvio, justamente porque o ser humano é um ser gregário, social.

Por isso, como diz Joanna de Ângelis, no livro Constelação Familiar, é fundamental que o lar, a representação minúscula da sociedade, como célula inicial, seja construída de forma que se alongue com naturalidade pelo grupo social na direção de toda a humanidade.

Quanto mais os membros da família convivem em clima de respeito e amizade, mais amplas se lhes tornam as facilidades de entendimento fraternal, predispondo-se à convivência saudável fora do lar, apesar da complexidade do grupo social e dos seus problemas muito variados.
A pessoa que se sente incluída não se exclui do convívio social. Aliás, conforme diz Thiago Bernardes, na Revista o Consolador (www.oconsolador.com.br), a sociabilidade é instintiva e obedece a um imperativo da lei do progresso que rege a Humanidade, a que o homem não se pode esquivar, sem prejudicar-se, pois é por meio do relacionamento com os semelhantes que ele desenvolve as suas potencialidades.
O desafio do momento é pensar e repensar sobre o presente, mas, sobretudo no futuro da humanidade, pois somos os responsáveis pela formação da geração que irá transformar o planeta em um mundo de regeneração, sem tanto sofrimento e mais compassivo, ou seja, com mais compaixão.
        
Paulo Eduardo de Barros Fonseca

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