Tenho afirmado várias vezes, até como forma de provocar o leitor, que a matéria-prima de que somos fabricados é miserável. Somos frágeis, além de contaminados por todas as características indicadoras de que não prestamos: egoísmo, insensibilidade, ingratidão, as mais variadas fissuras de caráter encontradas no reino animal. Os irracionais não ganharam discernimento e se comportam de maneira nobilíssima, incomparável à conduta do bicho-homem.
A crônica das imbecilidades cruéis perpetradas pelo homem já proveu toneladas de obras literárias e artísticas. Mas a humanidade sempre surpreende. Quando se pensa ter atingido o nível mais baixo, vê-se que o buraco é ainda mais fundo.
Esperar-se-ia que dentre os eruditos o comportamento fosse outro. Que ilusão! O homem escolarizado não perde aquele vício de origem. Ao contrário, perpetra suas maldades com sofisticação. É a tragédia humana, em todos os ambientes.
Mas há quem saia desse núcleo comum de mediocridades e se torna um paradigma em sua área de atuação. Um deles é Robert-Jan Smits, que foi diretor-geral de Pesquisa da União Europeia. Mostrou-se um homem ético, digno, sensível, além de sua inegável competência.
Foi-lhe lançado um desafio: buscar o acesso aberto da União Europeia, conseguindo mais artigos científicos publicados em plataformas que não exigem pagamento para quem queira consultá-los. Pois a produção científica, mesmo quando subsidiada por Estados, Governos ou entidades, não é disseminada. O Brasil tem experiência nisso. Quem não se lembra que foi necessário quebrar a patente dos medicamentos para cuidar do HIV, que matava como moscas, embora houvesse o coquetel que permitiria sobrevida aos aidéticos?
O dinheiro é que manda em tudo. Como se dinheiro fosse alguma coisa que se pudesse levar no caixão ou entrar no crematório junto com nossa carcaça.
Robert-Jan Smits elaborou um projeto muito instigante, que chamou “S”. Isso porque engloba a Ciência (Science, em inglês), velocidade (Speed), Solução (Solution) e choque (schock). Angariou financiamento e tornou grandes periódicos científicos disponíveis para todos os pesquisadores.
Convenceu o empresariado após demonstrar que, para cada euro investido em ciência e inovação, há um retorno econômico superior a onze euros. Com isso, conseguiu dezesseis editores de revistas que firmaram o compromisso, a ser colocado em prática no ano que vem. Smits acredita que o acesso livre à produção da ciência é irreversível.
Que bom se tivéssemos mais pessoas pensando no próximo, pensando na partilha do conhecimento, que não pode ser trancado a sete chaves só com o fito de enriquecer ainda mais os que pagaram por seu desenvolvimento.
A ciência poderia também pensar em algo que transformasse a mente humana em instrumento de solidariedade e fraternidade. Será que existe essa possibilidade no horizonte dos cientistas?
* Reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Ética Geral e Profissional” e Presidente da Academia Paulista de Letras.
José Renato Nalini